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Possível terceirização de questões do Enem preocupa especialistas

Publicado em 25 de Agosto de 2021 Por ADURN Sindicato
Possível terceirização de questões do Enem preocupa especialistas

Para Ocimar Alavarse, pesquisador em políticas educacionais, projeto promove controle e serve a desmoralização do Inep e do serviço público

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) avalia terceirizar a formulação das perguntas para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A intenção foi sugerida em um documento encaminhado aos coordenadores do instituto por Anderson Soares Furtado de Oliveira diretor de Avaliação da Educação Básica do instituto, a mando do presidente do Danilo Dupas.

O Banco Nacional Itens, repositório de perguntas do Inep, serve, além do Enem, a exames importantes como o Enade, o Pisa e o Revalida.

No documento, pede-se que os coordenadores do órgão avaliem dois cenários envolvendo o banco. No primeiro, que seja avaliada a manutenção do atual modelo do banco e da montagem de provas. No segundo, a possibilidade de terceirizar a elaboração e revisão de itens, bem como a montagem.

Os coordenadores têm até o dia 30 de agosto para dar um retorno à solicitação, conforme o documento.

Como funciona o BNI?

A composição dos banco de itens é de responsabilidade do Inep. A cada vez que o banco precisa receber novas questões, o instituto faz uma chamada pública para convocar colaboradores (professores), que passam por um processo de capacitação. Cumprida esta etapa, o Inep revisa e testa cada uma das questões e cuida de selecioná-las na hora da montagem das provas, promovendo a combinação de questões de baixa, média e alta dificuldade.

Servidores do Inep questionam a medida

A Associação de Servidores do Inep (Assinep) destacou as fragilidades que uma possível terceirização do banco de dados traria ao processo. “Terceirizar o BNI significa o Inep perder o controle da composição das provas dos exames. Fragiliza o processo. Facilita quadrilhas especializadas a se infiltrarem no processo a fim de obter vantagem ilícita. É um retrocesso em todos os sentidos. Enfraquece o órgão, desidrata sua estrutura e enfraquece ainda mais a carreira. Se isso passar, o desmonte começa a ser algo visível no horizonte”, apontam.

A Assinep também questiona a constitucionalidade do pedido tendo em vista a legislação que ancora a carreira dos servidores e indica possível crime de improbidade administrativa.

“A contratação de serviços para realizar atividades típicas de servidores públicos do Inep, conforme disposto na legislação que criou a carreira dos servidores, se materializada, pode atentar aos princípios constitucionais da legalidade, moralidade, eficiência e pessoalidade. Tal iniciativa pode se caracterizar como improbidade, por ser contratação desnecessária, gerando gastos desnecessários, visto existirem servidores públicos concursados no quadro do Inep que já realizam há muitos anos o serviço. Tal ato poderia demonstrar dolo dos agentes, infidelidade ao Instituto e o dano ao erário, configurando a prática como ato de improbidade administrativa previsto no art. 9º, da Lei nº 8.429/92.”

‘Esvaziamento do Inep pode servir a controle do governo’

Para Ocimar Alavarse, doutor em Educação e especialista em políticas educacionais, a tentativa de terceirizar o banco tem como pano de fundo o esvaziamento proposital do Inep e o avanço das pautas conservadoras caras à base ideológica do governo Bolsonaro.

Antes mesmo de assumir o atual mandato, Bolsonaro chegou a declarar que teria acesso à prova do Enem com antecedência, o que foge dos protocolos de segurança do exame. Em 2019, chegou a ser criada uma comissão para inspecionar questões do exame, segundo o governo em caráter consultivo, que ‘desaconselhou’ o uso de 66 questões pela prova e sugeriu trocar o termo ‘ditadura’ por ‘governo militar’ em uma das questões.

A cruzada ideológica pelo exame segue seu curso com o atual ministro Milton Ribeiro, que também chegou a declarar, em junho, que teria acesso às questões da prova, tendo recuado posteriormente. Ribeiro segue firme se mobilizando para um maior controle sobre a prova para que ela se atenha aos ‘valores morais’.

“Com a ideia da terceirização , o governo estaria jogando fora 100 anos de construção teórica e prática de como fazer itens de prova. Isso é ainda mais grave pensando no Enem, dado o tipo de impacto que o exame traz para a vida dos jovens”, critica Alavarse.

Para o pesquisador, o ataque ao Inep vem no bojo ao do praticado contra as universidades, com o desrespeito às listas tríplices de nomeação de reitores. “À exceção dos militares, tudo que é serviço público é vilipendiado por esse governo.”

Fonte: Carta Capital

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