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Educação é o principal interesse de deputados conservadores em projetos de leis na Câmara dos Deputados

Publicado em 02 de Abril de 2024 Por ADURN Sindicato

Um levantamento feito pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), divulgado pela Agência Pública, apontou que a educação é o tema mais recorrente nos projetos de lei assinados por parlamentares considerados católicos ou evangélicos na Câmara dos Deputados. Segundo o monitoramento feito pelo ISER, dos 322 projetos sobre educação pública submetidos em 2023, 167 foram assinados por deputados de direita.

Assuntos voltados para a segurança nas escolas são os mais abordados, seguido de propostas sobre gênero e sexualidade. 

Em resposta a episódios de violência ocorridos em instituições de ensino no país, as políticas para segurança sugerem desde a instalação de câmeras de segurança e detectores de metais em escolas públicas e privadas, até a autorização do uso de arma de fogo para professores e trabalhadores/as da educação.

Reforçando as pautas conservadoras, os projetos de autoria desses grupos também visam a proibição do “ensino de questões de gênero”, da “educação sexual”, da “instalação de banheiros unissex” e também do uso da linguagem neutra nas escolas.

Para Rosilene Corrêa, secretária de Finanças da CNTE, o interesse de grupos conservadores sobre o ensino tem sido um movimento comum observado entre parlamentares que têm usado a religião a serviço da politica.

"Na minha leitura, há uma distorção de papeis. Tentam polemizar com essas pautas e discussões a todo momento, e isso é um jeito de desviar a atenção daquilo que é central entre os problemas enfrentados pelo nosso país, e os quais o parlamento deveria estar mais dedicado, como a busca de soluções para a melhoria de vida das pessoas", avalia.

Integrante do Grupo de Trabalho Interministerial “Prevenção e Enfrentamento à Violência nas Escolas”, criado pelo Ministério da Educação (MEC) em 2023, Rosilene ainda critica a falta de políticas que busquem mudar a realidade da segurança em instituições de ensino.

"Quando se fala da segurança nas escolas, por exemplo, a tendência é que os projetos surjam para combater o efeito e as consequências de um ambiente que já sofre com a violência. Não são debatidas e apresentadas propostas de leis que possam mudar essa realidade... O que precisamos são de políticas públicas que efetivamente foquem em mudar esse cenário lá na sua essência, e não meramente naquilo que já são as consequências sofridas nas nossas escolas”, reforça Rosilene.

“Mas, infelizmente, é isso que a maioria vem fazendo, chegando ao absurdo de propor o uso de armas por professores/as e trabalhadores/as das escolas. Armar as pessoas não significa que elas estejam protegidas. Nestas condições é, meramente, dar um falso sentimento de proteção e uma autorização para que essas também pratiquem violência", lamenta.

Espaços de destaque 

Com a eleição do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) para a presidência da Comissão de Educação da Câmara, é esperado que debates sobre o futuro do ensino público do país se tornem ainda mais acirrados. 

Em entrevista para a Agência Pública, a pesquisadora responsável pelo monitoramento legislativo do ISER, Lívia Reis, explicou que, desde 2014, com a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), a temática se tornou alvo de forte atuação de grupos conservadores.

“Quando o PNE, naquela época, tentou colocar educação sexual nas escolas, surgiu uma ofensiva conservadora em reação, com a criação do Escola sem Partido, que nunca deixou de existir, mas se transformou em outras pautas, como o combate a uma suposta ‘ideologia de gênero’, por exemplo”, relatou Lívia para a Agência Pública.  

Em breve, uma das principais pautas para a educação básica pública, o Novo PNE 2024-2034, deverá entrar em tramitação no Congresso Nacional. Com parlamentares do campo progressista em menor número, a expectativa é que a defesa da política seja desafiadora. 

"O que temos assistido é uma tentativa constante (de parlamentares conservadores) em manter o palanque, utilizando a educação como pauta central em sua disputa, e na maior parte do tempo, com profundas distorções e inverdades a respeito do papel da educação nas escolas e a atuação dos/as profissionais de ensino. Estamos presenciando uma disputa de modelo de sociedade em curso, e a educação tem sido o meio utilizado para conquistar esses espaço”, afirma Rosilene.  

Ela aponta que, com frequência, pautas equivocadas atribuídas à educação, abordadas em discursos de deputados visando polemizar debates, ganham atenção e acabam gerando prejuízos para pautas mais importantes dentro do tema.  

“De repente, vemos discussões onde as pessoas são levadas a se preocuparem mais com debates de gênero e sobre banheiros mistos, do que se a educação oferecida está sendo inclusiva e de qualidade; ou a quantidade de alunos que se tem por sala de aula; quanto está se pagando aos profissionais da educação; se está sendo oferecido uma boa merenda aos estudantes, além da situação de milhares de crianças e adolescentes em idade escolar que estão fora da escola. O que está sendo trazido para a centralidade desse debate não é aquilo que é o mais importante para  a vida dos nossos estudantes”,  considera Rosilene.

"Não é à toa que insistimos na defesa e seremos eternos lutadores pela educação que realmente transforma vidas. É essa a formação que vai nos dar a sociedade que entendemos como mais justa. Hoje, nós temos uma disputa ideológica, e a educação é a ferramenta central disso", completa.

 

Matéria adaptada da reportagem de Danilo Queiroz e Mariama Correia, da Agência Pública.

Acesse o link: https://apublica.org/2024/03/educacao-e-principal-foco-de-projetos-de-lei-conservadores-na-camara/ 

Fonte: CNTE
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