Permanecer ou desistir: o impacto do corte na assistência estudantil
Na segunda reportagem da série sobre os cortes na educação, o foco se volta para quem sente de forma imediata o peso do desfinanciamento das universidades federais: os estudantes em situação de vulnerabilidade. Com os recursos da assistência estudantil cada vez mais pressionados, permanecer na universidade deixa de ser apenas um desafio acadêmico e passa a ser uma questão de sobrevivência. Bolsas, auxílio moradia, alimentação e transporte, que garantem condições mínimas de permanência, entram na conta dos cortes aprovados pelo Congresso Nacional e colocam em risco trajetórias inteiras.
Para entender como esse cenário afeta a vida estudantil, a reportagem ouviu o estudante de Jornalismo, coordenador-geral do Diretório Central dos Estudantes da UFRN e diretor de Políticas Educacionais da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Norte, Leandro Alves. Na entrevista, ele explica o papel da Política Nacional de Assistência Estudantil, os impactos diretos dos cortes e os riscos de aumento da evasão universitária.
Confira entrevistas na íntegra:
Leandro, o que a Política Nacional de Assistência Estudantil garante hoje aos estudantes?
“Então, o PNAES, que é a Política Nacional de Assistência Estudantil, é uma política pública federal que foi criada justamente para ampliar e garantir a permanência dos estudantes nas universidades e nos institutos federais, sempre com esse foco na inclusão social.
Nós estamos falando de uma política pública que possibilita, por exemplo, a Bolsa Permanência, que é um auxílio direto para os estudantes de baixa renda, principalmente indígenas e quilombolas. Estamos falando do auxílio moradia pago pelas universidades, do acesso ao restaurante universitário ou de um auxílio alimentação.
Estamos falando do auxílio transporte, do acesso à saúde por parte dos estudantes, do apoio pedagógico que é necessário. Estamos falando também de inclusão digital e, pensando no contexto da pandemia de Covid-19, a gente vê como foi caótico, mas também como foi importante que os alunos de baixa renda tivessem um auxílio para comprar um computador ou um tablet, ter acesso à internet e conseguir continuar estudando.
Além disso, existem programas que incentivam a participação cultural e esportiva, inclusive quando o estudante vai representar a universidade fora do estado, sempre com essa ênfase em promover condições para que todas as pessoas consigam concluir seus cursos.”
Como os recorrentes cortes na assistência impactam diretamente a permanência na universidade?
“O Brasil tem vivido, nos últimos três anos, sob um governo que é novamente um governo progressista, democrático, que acredita na educação como uma ferramenta emancipadora, como uma ferramenta que vai ajudar o país a superar as desigualdades.
No entanto, a gente não pode deixar de considerar que, antes disso, passamos seis, quase sete anos, sob governos de direita que não tinham o mesmo afinco com o investimento em educação pública e nos serviços públicos em geral.
É inegável que esses cortes orçamentários reduzem drasticamente os recursos das universidades federais e comprometem a assistência estudantil. Isso compromete a efetivação do PNAES, porque cria lacunas de financiamento, e nós sabemos que isso prejudica diretamente os estudantes em situação de vulnerabilidade.
Um corte como o que foi realizado no final de 2025, em dezembro, pelo Congresso Nacional, que retirou recursos da educação para aumentar as emendas parlamentares impositivas, é um absurdo. Isso significa menos estudantes recebendo bolsas, menos apoio à moradia, que muitas vezes já é um valor precário, menos acesso à alimentação, ao restaurante universitário e a tantos outros benefícios essenciais.
Então, esses cortes fragilizam as condições socioeconômicas para a permanência dos estudantes, sobretudo daqueles que dependem desse apoio para sobreviver e estudar.”
Leandro, quais são os estudantes mais afetados por essa redução de recursos?
“Essa redução dos recursos recai sobre os estudantes da mesma forma que afeta a sociedade como um todo, atingindo de maneira mais direta e intensa os grupos que já enfrentam as maiores barreiras socioeconômicas na nossa sociedade.
Estamos falando de estudantes de baixa renda, que dependem dos auxílios para custear sua alimentação, sua moradia e transporte. Estamos falando de estudantes indígenas e quilombolas, que tradicionalmente recebem a Bolsa Permanência. Estamos falando de estudantes negros e pardos, que enfrentam maiores dificuldades sociais e econômicas em todo o percurso educacional até chegar na universodade e dentro da universidade também.
Também estamos falando de mães solo, estudantes com filhos, estudantes com deficiência, de todas as pessoas que precisam de suporte para conciliar o estudo com a vida familiar. De modo geral, são os estudantes mais vulneráveis socioeconomicamente que sofrem mais com a redução desses recursos, porque não têm renda familiar estável nem condições financeiras próprias para manter o custo de vida universitário.”
Por fim, que riscos esse cenário traz para a evasão universitária?
“Então, a redução dos recursos que tratam de assistência estudantil, ela ameaça diretamente a permanência dos estudantes na universidade, a conclusão dos cursos que esses estudantes escolheram e isso tem implicações diretamente nas taxas de evasão também.
Diversas pesquisas indicam que, quando estudantes de baixa renda deixam de receber apoio financeiro, as chances de trancar ou abandonar o curso aumentam demais, porque faltam as condições mínimas para sobreviver e estudar. Fora que esses cortes que atingem os programas de assistência, eles tendem a aprofundar ainda mais as desigualdades educacionais que já são enormes no nosso país, porque eles retiram um suporte de quem já está sofrendo uma desvantagem.
E isso tudo leva a uma precarização geral da experiência universitária, sem sem uma alimentação adequada, sem a moradia, sem o transporte, sem o apoio pedagógico psicossocial, os estudantes acabam enfrentando uma sobrecarga muito grande que vai comprometer tanto o desempenho quanto a persistir assistência que a gente precisa ter para conseguir concluir os nossos cursos.
Isso tem impacto em grupos sociais também muito específicos, porque acaba retirando os benefícios e exclui ainda mais quem já enfrenta muitas barreiras estruturais na nossa sociedade para conseguir acessar e permanecer no ensino superior.
Então, basicamente, os cortes na assistência estudantil, eles ampliam ainda mais o risco de de evasão universitária no nosso país, principalmente entre os jovens mais vulneráveis e compromete apenas, é, não não só o projeto de vida daquele estudante, mas todo o objetivo maior da educação pública no nosso país que deveria ser de promover a justiça social, a redução das desigualdades, promover a equidade."
Ao longo desta série, o ADURN-Sindicato busca escancarar os efeitos concretos do desfinanciamento da educação pública, indo além dos números e mostrando como decisões políticas impactam vidas, projetos e o futuro do país. No próximo episódio, a série aprofunda como o corte se materializa na UFRN, com redução de custeio e agravamento da situação financeira da instituição.
Ouça EPISÓDIO 2 completo: