Dia Internacional da Mulher evidencia urgência no enfrentamento à violência de gênero
O 8 de março costuma chegar acompanhado de flores, mensagens protocolares e discursos apressados sobre as conquistas femininas. Mas qualquer tentativa de reduzir a data a um gesto simbólico esbarra rapidamente na realidade vivida pelas mulheres. No Brasil de 2026, os números mais recentes sobre violência de gênero lembram que a luta que deu origem ao Dia Internacional da Mulher continua longe de terminar.
Entre janeiro e julho de 2025, o Ligue 180 registrou 594.118 atendimentos relacionados à violência contra mulheres. Desse total, 86.025 se transformaram em denúncias formais. Os dados integram o novo painel do Ministério das Mulheres e representam aumento em relação ao mesmo período de 2024. O recorte também revela uma marca persistente da desigualdade brasileira: a maioria das vítimas continua sendo mulheres negras. Em muitos casos, o agressor está dentro de casa. Companheiros ou ex-companheiros aparecem como os principais responsáveis pelas agressões.
A violência psicológica segue como uma das formas mais recorrentes de denúncia, frequentemente acompanhada pela violência física e, em muitos casos, pela violência sexual. Enquanto isso, o feminicídio permanece como expressão extrema desse ciclo danoso. Além disso, a média nacional continua próxima de quatro mulheres assassinadas por dia. São números que desmontam qualquer tentativa de tratar o problema como exceção ou episódio isolado.
O debate sobre a violência contra a mulher também atravessa os espaços de trabalho e produção de conhecimento. Nas universidades públicas, onde milhares de mulheres constroem diariamente suas trajetórias como docentes, pesquisadoras, técnicas e estudantes, a discussão sobre igualdade de gênero e proteção contra diferentes formas de violência não pode ser secundária. As relações de poder que estruturam a sociedade brasileira também atravessam as instituições acadêmicas e se expressam em desigualdades, assédios e pressões cotidianas que afetam especialmente as mulheres.
Para a diretoria do ADURN-Sindicato, enfrentar esse cenário passa por duas frentes inseparáveis. De um lado, a defesa de políticas públicas de combate à violência de gênero, com financiamento adequado, rede de acolhimento estruturada e políticas permanentes de prevenção. De outro, a construção de ambientes de trabalho que garantam dignidade, segurança e condições de saúde física e mental para as mulheres que fazem a universidade pública existir todos os dias.
O 8 de março, nesse sentido, não é apenas uma data de memória. É um lembrete incômodo de que as conquistas acumuladas ao longo de décadas de mobilização feminista convivem com desafios persistentes. Enquanto as mulheres continuarem sendo agredidas, silenciadas ou mortas por razões de gênero, a luta por igualdade seguirá sendo também uma luta pela própria vida. E essa é uma responsabilidade que não pode ser terceirizada nem adiada.