Terceiro episódio da série "Quem Cuida de Quem Ensina?" fala sobre envelhecimento saudável; ouça programa
Porquê considerar a relevância de um trabalhador(a) somente enquanto ele(a) está na ativa, cumprindo uma carga horária exigida? E, porquê desconsiderar o bem-estar e a qualidade de vida daqueles(as) que já contribuíram para o exercício do trabalho e hoje se encontram aposentados(as)?
A resposta destas perguntas torna-se obrigatória para quem as analisa com profundidade. Afinal de contas é a partir desta reflexão que evidenciamos uma pauta tão importante em nossa comunidade acadêmica: o envelhecimento dos docentes.
Na UFRN contamos com o quantitativo de 1.714 docentes aposentados. Anos de dedicação ao ensino, à pesquisa e à extensão; fazendo a roda da educação pública girar e levando o conhecimento a lugares inimagináveis. Esforçando-se para que o melhor chegue aos(as) seus(as) alunos(as) e, assim, vidas sejam transformadas através do saber acadêmico.
Foram inúmeros(as) professores e professoras ofertando aquilo que tinham de mais precioso para a universidade em prol do desenvolvimento da educação: o seu tempo.
Falar sobre o processo de envelhecimento saudável do(a) docente no espaço da universidade é, principalmente, a fim de que a instituição perceba a importância de quem já fez, mas pode continuar fazendo para que ela permaneça e resista.
Para falar melhor sobre isso, convidamos a psicóloga lotada no instituto do envelhecer da UFRN, Anuska Irene de Alencar.
A princípio em sua fala a profissional da psicologia explica um pouco sobre como o envelhecimento influencia no trabalho: "o nosso trabalho é influenciado por questões do envelhecimento! Pensando do ponto de vista do docente, um aspecto que a gente pode considerar positivo é a experiência: certamente ganhos no conhecimento, na habilidade, na maturidade pedagógica. Isso porque o tempo nessa sala de aula vai gerar essa maior segurança e mais facilidade de gerenciar, inclusive, conflitos. Mas, é claro que esses excessos de conflitos, seja com os docentes, seja nas distribuições de disciplinas, no fazer parte de pós-graduação também pode ser desafiador. E o desafio também pode ser bom ou ruim, vai depender muito da forma como esse desafio é encarado".
Uma outra coisa que a especialista chama atenção é na maneira que o docente em envelhecimento leva o seu dia a dia de ensino e, para além disso, em como a própria universidade influencia nesse desempenho: "é preciso gerenciar coisas que muitas vezes vai fazer parte dessa idade. A habilidade física, por exemplo, ela vai ser um desafio. Com o passar do tempo a gente vai ter uma redução gradual da força física; mais lentidão, tanto física quanto de pensamento. Mas é preciso pensar também dentro da universidade: vai ser um desafio às nossas barreiras arquitetônicas. Vários espaços na nossa universidade é difícil para as pessoas idosas e para quem está em processo de envelhecimento. Alguns lugares apresenta uma certa dificuldade, seja na produção de aulas, produção de artigos ou realização de pesquisas, tudo isso são elementos que demandam tempo... E há também uma exigência subjetiva e objetiva que é tensionada pelo produtivismo acadêmico e isso vai chegando junto com questões que a própria idade traz".
Em complemento a isso, Anuska pontua o que pode ser feito para que os impactos na aposentadoria sejam brandos: "então, é importante pensar também na aposentadoria, buscando reduzir os impactos emocionais, financeiros e sociais que ela pode trazer. Buscar, antes de se aposentar, o resgate de hobbies, questões de interesse próprio, de lazer e até mesmo de uma nova carreira pós-aposentadoria. Na universidade, por exemplo, existe um programa Vida com Matoridade que oferece cursos de preparação para aposentadoria. Além disso, eria também interessante que dentro dos departamento houvessem discussões sobre redução de carga horária em sala de aula a fim de valorizar outros aspectos que o professor exerce, seja em pesquisa, extensão e outras atividades administrativas que eles podem realizar".
Esta é uma série demonstra o compromisso do ADURN-Sindicato com todas as demandas docentes, compreendendo que a luta por respeito, valorização e mais investimentos na educação pública brasileira perpassa pela garantia de um espaço seguro e qualificado para aqueles que fazem o ensino e o saber circularem plenamente na sociedade.
Na próxima semana continuaremos com a sequência de reportagens com especialistas convidados, para informar, refletir e fortalecer a pauta sobre a saúde do docente na UFRN.
Ouça episódio 3 na íntegra: