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O fundamentalismo religioso se transformou em um projeto político de poder, alerta Henrique Vieira em live do Na Trilha da Democracia

Publicado em 11 de Agosto de 2026 Por ADURN Sindicato
O fundamentalismo religioso se transformou em um projeto político de poder, alerta Henrique Vieira em live do Na Trilha da Democracia

O ADURN-Sindicato realizou, na noite desta segunda-feira, 10 de agosto, mais uma edição do ciclo de debates do Na Trilha da Democracia. Transmitido ao vivo pelo canal oficial da entidade no YouTube, o evento teve como convidado o  cientista social, teólogo, historiador, pastor e deputado federal Henrique Vieira (PSOL-RJ), que dialogou sobre o tema "Fundamentalismo religioso e seus impactos para a democracia".

A atividade marcou um novo formato para o projeto, realizado pela primeira vez exclusivamente de forma virtual, e reuniu professores, estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e a comunidade em geral para debater a escalada do extremismo no Brasil.

Na abertura oficial, o presidente em exercício do ADURN-Sindicato, Dimitri Taurino, destacou a urgência de debater o tema no atual cenário político do país. Para ele, a preservação da democracia exige a proteção contínua dos direitos humanos e da diversidade. "O atual período político, marcado pelo extremismo e por posturas fundamentalistas, em especial as religiosas, tem desafiado a sociedade a lutar pela defesa de nossa ainda jovem democracia", afirmou. 

Dimitri também ressaltou que "defender o Estado Democrático de Direito pressupõe um modelo político em que o poder emana do povo, mas que ao mesmo tempo estabelece limites para assegurar os direitos de cada cidadã e cidadão. A defesa da democracia tem como pilares fundamentais a garantia dos direitos humanos, o respeito à diversidade e, sobretudo, a laicidade do Estado".

A mediação da atividade foi conduzida pela diretora da entidade, Fernanda Gurgel, que reforçou a importância do Na Trilha da Democracia como espaço contínuo de resistência, formação política e mobilização social da categoria docente.

O fundamentalismo como projeto político da extrema-direita

Iniciando sua exposição, o deputado Henrique Vieira fez uma distinção didática central: o fundamentalismo não deve ser confundido com a religião ou a fé em si, mas sim compreendido como uma forma específica e intolerante de vivenciar a religiosidade. Para o parlamentar, o grande perigo para a democracia ocorre quando essa visão de mundo ultrapassa as paredes das igrejas e passa a atuar como um projeto institucional de domínio.

"O fundamentalismo religioso é uma forma de experimentar a religião que apresenta uma dificuldade enorme para conviver com a diversidade e respeitar a alteridade", explicou Henrique Vieira. Segundo ele, o fundamentalismo religioso vem se traduzindo como um projeto político de poder, de domínio, de apropriação do Estado, do Legislativo e das leis. Não basta organizar um grupo que crê de determinado jeito, passa a ser preciso impor ao conjunto da sociedade uma visão moral e comportamental. É neste ponto que a democracia se fragiliza.

Segundo o Henrique, nas Américas o fundamentalismo religioso atua como o "centro gravitacional da extrema-direita". Sob o pretexto de travessia de uma "batalha espiritual" entre o bem e o mal, constrói-se uma linguagem bélica que desumaniza o adversário político, deslegitima minorias e transforma a arena pública em um "campo de inimizade" e "necropolítica".

"Transforma-se a política em um espaço de guerra, uma linguagem espiritual violenta de negação completa da legitimidade da existência do outro. No limite, pode-se matar em nome de Deus", alertou o deputado, ressaltando que essa estrutura também se apoia em pilares patriarcais, racistas e cis-heteronormativos, funcionando como terreno fértil para a disseminação sistemática de desinformação.

Aprofundamento teológico e resgate histórico

Durante o debate, Henrique Vieira também apontou o contrassenso histórico existente no fundamentalismo dito cristão. O parlamentar relembrou a figura histórica de Jesus de Nazaré como um homem periférico, perseguido e executado pelo Estado romano e por setores religiosos hegemônicos por andar com os vulneráveis e romper fronteiras morais e sociais.

Henrique contextualiza que quatro séculos após o evento Jesus, o cristianismo deixou de ser uma religiosidade popular e periférica e passou a ser a religião oficial de um Estado “que matou o próprio Jesus". Segundo o deputado, "Sumiu o Jesus das periferias, da vida e da partilha do pão, e surgiu o Jesus guerreiro, bélico, das cruzadas e da colonização".

Ao apontar saídas para o enfrentamento ao extremismo, Henrique Vieira argumentou que a postura antirreligiosa ou o preconceito contra a fé são equívocos táticos e analíticos. Para ele, a religiosidade faz parte da mística, da cultura e do cotidiano da classe trabalhadora brasileira. "Não é ter aversão à religião, mas colocar a experiência religiosa dentro de um ambiente plural e laico. Defender o estado laico é proteger a democracia, a liberdade religiosa e combater o racismo religioso que atinge principalmente as religiões de matriz africana", destacou.

Assista à transmissão completa da live com o deputado Henrique Vieira no canal do ADURN-Sindicato no YouTube.

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