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Mulheres são maioria nas urnas, mas ainda têm pouco espaço no poder

Publicado em 19 de Agosto de 2026 Por ADURN Sindicato
Mulheres são maioria nas urnas, mas ainda têm pouco espaço no poder

Quase 84 milhões de mulheres poderão votar nas eleições de outubro. Elas são 52,84% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na lista de candidaturas, porém, a realidade é inversa. As mulheres representam apenas 34,8% dos registros apresentados para as eleições de 2026.

Ao todo, são 7.138 candidatas entre 20.501 nomes, de acordo com os dado do TSE. É o maior percentual já registrado no país, mas o avanço foi pequeno. Em relação às eleições de 2022, o aumento foi de apenas um ponto percentual.

A distância aumenta quando se olha para quem já ocupa o poder. Hoje, as mulheres são 91 entre os 513 integrantes da Câmara dos Deputados, o equivalente a 17,7%. No Senado, elas ocupam 15 das 81 cadeiras.

Quem forma a maioria nas urnas continua longe de participar, na mesma proporção, das decisões do país. A afirmação é da secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino. Ela reforça ainda que é preciso a sociedade ter outro olhar sobre o que é, de fato, representatividade.

“A sociedade brasileira precisa olhar com mais atenção para quem elege para a Câmara e o Senado. Nas últimas legislaturas, o país escolheu representantes que estão longe de refletir a realidade do povo brasileiro e de defender suas verdadeiras demandas. A baixa presença de mulheres nesses espaços é parte desse problema e continua muito aquém do que seria justo” afirma Amanda.

Candidaturas avançam, mas devagar

O crescimento das candidaturas femininas não ocorre da mesma forma em todas as disputas. As mulheres são 36,6% dos nomes para a Câmara dos Deputados, 35,5% para a Câmara Legislativa do Distrito Federal e 34,4% para as assembleias estaduais. Para o Senado, a participação cai para 21,9%.

A presença é ainda menor nas eleições para o Executivo, nas quais a cota de gênero não se aplica. As mulheres representam 16,4% das candidaturas aos governos estaduais e somente 15,4% das que concorrem à Presidência da República.

O recorte racial mostra outra parte do problema. As mulheres pretas e pardas são 52,3% das candidaturas femininas, mas apenas 18,2% do total de concorrentes. São 3.731 candidatas negras. Para as eleições de 2026 houve também o registro de 107 candidaturas de pessoas trans, um novo recorde. Pela primeira vez, o TSE incluiu a identidade de gênero em suas estatísticas oficiais.

A disputa começa dentro dos partidos

A lei determina que partidos e federações reservem entre 30% e 70% das candidaturas proporcionais para pessoas de cada sexo. A regra abriu caminho para mais mulheres nas urnas. Mesmo assim, o recorde de 2026 continua pouco acima do mínimo exigido.

Registrar uma candidatura também não basta. Para disputar de verdade, é preciso ter dinheiro, equipe, visibilidade e tempo de campanha. A Emenda Constitucional 117/2022 determina que pelo menos 30% dos recursos dos fundos partidário e eleitoral sejam destinados às candidaturas femininas. Quando o número de candidatas passa desse percentual, o repasse deve crescer na mesma proporção.

Ainda há outro obstáculo: a violência política de gênero. Ameaças, assédio, ataques e mentiras espalhadas nas redes tentam afastar mulheres da disputa e enfraquecer aquelas que já exercem mandato. Mulheres negras, indígenas, periféricas e LGBTQIA+ são atingidas de forma ainda mais dura.

“O voto é livre, e cada pessoa tem o direito de escolher quem considera melhor. Mas essa decisão precisa ser consciente. Antes de votar, é fundamental conhecer as propostas, os compromissos e os propósitos de cada candidatura. Precisamos eleger quem realmente representa nossas pautas e defende a classe trabalhadora” afirma Amanda.

Quem decide também define prioridades

Essa escolha tem efeitos concretos na vida das mulheres. É no Congresso e nos governos que que se dá o caminho das políticas públicas voltadas às mulheres. São os espaços onde se decide quanto será investido em creches, saúde e políticas de cuidado. Também é nesses espaços que avançam - ou ficam paradas - medidas sobre jornada de trabalho, igualdade salarial e combate à violência.

A desigualdade de gêneros é latente na sociedade e por isso, essas decisões têm peso fundamental. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2022, as mulheres dedicavam 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, eram 11,7 horas. Na prática, elas trabalhavam quase dez horas a mais por semana sem receber por isso.

É por essa razão que a CUT também trata o fim da escala 6x1 como uma pauta das mulheres. Com apenas um dia de folga, muitas usam o pouco tempo livre para dar conta das tarefas acumuladas em casa.

“A jornada de trabalho total, ou seja, a jornada remunerada somada à jornada não remunerada, é muito maior para as mulheres. Por isso a redução é fundamental, especialmente para quem vive dupla ou até tripla jornada” diz Amanda.

A desigualdade também chega ao salário. O 5º Relatório de Transparência Salarial, divulgado em abril de 2026, mostrou que as mulheres recebiam, em média, 21,3% menos que os homens. O levantamento reuniu informações de cerca de 53,5 mil empresas privadas com cem ou mais empregados.

O dado compara a remuneração média de mulheres e homens nessas empresas. Não quer dizer que todas as pessoas analisadas exerçam a mesma função. Já a Lei nº 14.611/2023 garante salário igual para trabalho de igual valor ou para o exercício da mesma função. A norma também prevê transparência, fiscalização, canais de denúncia e medidas para reduzir as diferenças.

Mais presença e compromisso com direitos

Para a CUT, aumentar o número de mulheres na política é necessário, mas a representação não pode ser apenas numérica. A entidade defende candidaturas comprometidas com a democracia, a liberdade, a autonomia das mulheres e os direitos da classe trabalhadora.

“Precisamos de mais mulheres no Parlamento para que haja equidade real na distribuição de poder. Quando ampliamos a presença feminina comprometida com a democracia e com uma visão progressista, as políticas públicas deixam de ser promessa e passam a transformar a vida das pessoas. Mas é fundamental escolher representantes alinhadas à defesa da liberdade, da autonomia sobre nossos corpos e nossas trajetórias. Há mulheres que atuam em defesa de projetos conservadores que contrariam direitos históricos e restringem avanços fundamentais” afirma Amanda.

Para a dirigente, a mudança não termina nas eleições. Ela também passa pelo combate à misoginia, pela educação de meninos para relações baseadas no respeito e pela cobrança de medidas contra ataques às mulheres nas redes sociais.

“Não é aceitável que mulheres sejam maioria no país e nas urnas, mas continuem com menos de um quinto das cadeiras no Congresso. Essa realidade torna evidente uma desigualdade histórica que ainda estrutura a política brasileira” afirma Amanda.

Por isso, ela pontua, as eleições de 2026 podem ajudar a reduzir essa distância. “Partidos precisam abrir espaço, financiar candidaturas competitivas e cumprir as regras sem fraude. Ao eleitorado, cabe olhar para os nomes, conhecer as propostas e escolher quem está disposto a transformar em decisão política as necessidades da maioria da população”, diz.

Fonte: CUT

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