Professora da ECT conquista Prêmio Ciência Delas 2026 na categoria Espanha
A professora Elisama Vieira dos Santos, vinculada à Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ECT/UFRN), foi vencedora do Prêmio Ciência Delas 2026, na Categoria Espanha, com o projeto Da recuperação de resíduos salinos a sistemas de energia sustentável: plataformas integradas para a produção de H2 e hipoclorito de sódio com acoplamento de energia renovável.
A proposta desenvolve uma tecnologia eletroquímica para aproveitar correntes salinas residuais como matéria-prima para a obtenção simultânea de produtos de interesse energético e industrial.
Criado pela Repsol Sinopec Brasil, em parceria com a Associação de Cientistas Espanhóis no Brasil (Acebra) e apoio da Embaixada da Espanha no Brasil, o Prêmio Ciência Delas: Mulheres Cientistas pelo Amanhã reconhece projetos de pesquisa e desenvolvimento relacionados à transição energética, às energias renováveis e à descarbonização. Em sua segunda edição, a iniciativa passou a contar também com o Energy Summit Global e o iUP, hub de inovação do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP).
A edição de 2026 foi organizada nas categorias Brasil, Espanha e Estados Unidos. Na categoria Espanha, a vencedora recebe R$30 mil destinados a despesas relacionadas a uma experiência de networking e imersão no ecossistema de inovação do país europeu.
A proposta é aproximar pesquisadoras de centros, empresas, especialistas e iniciativas ligadas ao desenvolvimento tecnológico, favorecendo novas conexões científicas e oportunidades de cooperação internacional. O resultado da premiação foi revelado em 17 de agosto e a cerimônia está prevista para ocorrer entre 21 a 24 de setembro, durante o Festival ROG.e 2026.
Resíduos salinos como matéria-prima
O projeto apresentado pela professora Elisama parte de um problema presente em processos de dessalinização e em diferentes atividades industriais: a geração de correntes aquosas com elevada concentração de sais. O descarte inadequado desse material pode representar um desafio ambiental, principalmente em regiões onde a disponibilidade hídrica é limitada.
A pesquisa propõe utilizar a composição química dessas correntes como parte de um processo eletroquímico integrado. A plataforma é projetada para produzir hidrogênio, que pode atuar como vetor energético, e hipoclorito de sódio, composto amplamente empregado em processos de desinfecção e tratamento de água. O sistema prevê ainda o uso de eletricidade proveniente de fontes renováveis.
A estratégia busca, portanto, utilizar um mesmo processo para responder a diferentes demandas: reduzir o volume de resíduos salinos que necessitam de destinação, aproveitar espécies químicas presentes nesses resíduos, produzir hidrogênio e obter um segundo produto com aplicação industrial. A proposta aproxima conceitos de economia circular, eletrificação de processos e produção de energia de baixo carbono.
“Nosso objetivo é mostrar que uma corrente salina residual não precisa ser vista apenas como algo a ser descartado. Ela pode ser utilizada como matéria-prima para produzir hidrogênio e outros produtos de interesse, principalmente quando o processo é associado à energia renovável”, afirma a professora.
Segundo Elisama Santos, o reconhecimento também representa a consolidação de uma linha de pesquisa construída ao longo de diferentes projetos. “Receber o Prêmio Ciência Delas tem um significado muito especial, porque reconhece uma pesquisa que procura conectar problemas ambientais concretos com soluções para a transição energética”, destaca.
Pesquisa desenvolvida na UFRN
Na Universidade, Elisama Vieira desenvolve suas atividades no Laboratório de Eletroquímica Ambiental e Aplicada (Leaa). As pesquisas do grupo envolvem o desenvolvimento de materiais, eletrodos e reatores eletroquímicos, além da caracterização e validação de tecnologias direcionadas ao tratamento e à valorização de águas residuais, produção de hidrogênio, conversão eletroquímica de resíduos e obtenção de produtos químicos. Atualmente, coordena a startup ENIE, com foco no desenvolvimento de dispositivos eletroquímicos.
A proposta premiada reúne, inclusive, diferentes competências desenvolvidas no laboratório. Os estudos incluem a seleção e preparação de materiais para os eletrodos, avaliação das reações que ocorrem nos compartimentos do sistema, quantificação dos produtos gerados, determinação da eficiência energética e investigação do comportamento do processo quando são utilizadas matrizes salinas.
Outro eixo é o acoplamento com fontes renováveis. A utilização de eletricidade solar ou proveniente de outras fontes de baixo carbono permite investigar sistemas capazes de associar recuperação de resíduos e produção de produtos químicos à redução das emissões relacionadas ao consumo energético.
Categoria Espanha amplia possibilidades de cooperação
Além do reconhecimento científico, a conquista na categoria Espanha permite que a pesquisadora participe de atividades de imersão e networking no ecossistema espanhol de inovação. Elisama, que já realizou seu pós-doutorado na Universidad de Castilla-La Mancha – Ciudad Real, revela que a experiência abre espaço para aproximar as pesquisas desenvolvidas na UFRN de universidades, centros tecnológicos que trabalham com hidrogênio, eletrificação industrial, tecnologias ambientais e descarbonização de outros países.
“Esse prêmio também representa o trabalho dos estudantes e pesquisadores que participam dessas pesquisas e cria uma oportunidade importante para ampliar nossas colaborações com instituições e ambientes de inovação na Espanha”, explica.
A conquista insere a UFRN em uma premiação dedicada especificamente à participação feminina em áreas consideradas estratégicas para o futuro do setor energético. Ao reconhecer uma proposta que combina resíduos salinos, eletroquímica, hidrogênio e energia renovável, o Ciência Delas também amplia a visibilidade das pesquisas desenvolvidas no Nordeste voltadas à criação de tecnologias para uma economia de menor emissão de carbono.
Fonte: Portal da UFRN