OPINIÃO: O próximo reitor da UFRN e o cuidado que a universidade deve ter com quem a faz funcionar
Por Wellington Duarte, docente do Departamento de Economia, diretor no ADURN-Sindicato e presidente do PROIFES-Federação
Até o fim do ano a comunidade acadêmica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte voltará às urnas para escolher quem conduzirá a instituição no período 2027-2031. O processo eleitoral já está em curso e os contendores já estão dialogando com a comunidade acadêmica. O pleito, agora democratizado com o fim das famigeradas listas tríplices, é uma oportunidade rara de docentes, técnicos e discentes, debaterem e proporem que tipo de instituição deseja construir para os próximos quatro anos.
A UFRN não é uma universidade qualquer para o Rio Grande do Norte. São mais de 43 mil estudantes; cerca de 3.500 servidores técnico-administrativos; e 2.400 docentes; três hospitais universitários; um parque tecnológico potente; emissora próprias de rádio e TV; e vários equipamentos públicos, espalhados por Natal e pelo interior do estado. Trata-se de uma das instituições mais estratégicas para o desenvolvimento potiguar, o que faz da escolha de sua reitoria um assunto que interessa a toda a sociedade, e não apenas a quem circula pelos corredores da universidade.
Se considerarmos o quantitativo geral da comunidade acadêmica da UFRN, soma-se em torno de 49mil pessoas, isso corresponde basicamente ao número de habitantes do município de São José de Mipibu, portanto situado entre os maiores contingentes populacionais do estado. O seu orçamento total, cerca de R$ 2,5 bilhões, representa 13,0% do total da arrecadação do governo estadual e 2,5% do PIB total do RN o que, convenhamos, é um indicador da importância dessa instituição para a economia do RN.
Inserido dentro dessa estrutura bem robusta, um dos temas que ainda ocupa pouco espaço nesse debate, mas que deveria estar no centro dele, é a saúde mental de quem ensina, pesquisa, faz extensão e ainda é, muitas vezes, chamado à gestão. A imagem tradicional do professor(a) universitário(a) — dono(a) do próprio tempo, movido(a) apenas pela vocação, protegido pela estabilidade do cargo público — está cada vez mais distante da rotina real vivida em salas de aula, laboratórios e gabinetes de pesquisa. Pesquisas acadêmicas brasileiras sobre o adoecimento docente vêm apontando, de forma bastante consistente, que o excesso de tarefas, a deterioração das condições de trabalho e o desgaste nas relações profissionais dentro das universidades estão entre as principais causas de estresse crônico e esgotamento entre os(as) professores(as). Somam-se a isso fatores estruturais já conhecidos da carreira acadêmica pública no Brasil — remuneração defasada, cobranças crescentes por produtividade e uma sobrecarga de tarefas administrativas que pouco tem a ver com ensinar ou pesquisar —, um conjunto de pressões que favorece quadros como a Síndrome de Burnout.
Esse cenário não é distante da nossa realidade potiguar. Há muitos sinais de esgotamento profissional entre professores(as) do ensino superior e os fatores que o alimentam. Não se trata, portanto, de um problema importado de outras realidades, mas de uma questão que já está presente entre nós.
É justamente aí que o papel do reitor se torna decisivo. Administrar uma universidade pública federal, sobretudo em tempos de restrição orçamentária e de pressão crescente por indicadores de produtividade acadêmica, não pode se resumir a equilibrar planilhas e cumprir calendários administrativos. Universidades não são organizações comuns: sua maior riqueza está nas pessoas, na diversidade de ideias e na liberdade de pensar e produzir conhecimento. Por isso, liderar uma instituição como essa exige muito mais do que gerir recursos e coordenar estruturas; exige compreender as condições concretas em que o trabalho intelectual acontece.
Um reitor atento à saúde mental de seus(as) docentes é, antes de tudo, um gestor que entende que a qualidade do ensino e da pesquisa depende diretamente do bem-estar de quem os produz. Isso se traduz, na prática, em políticas efetivas de acompanhamento psicossocial ao(a) servidor(a); na redução do excesso de burocracia que hoje consome boa parte do tempo que deveria ser dedicado à sala de aula e à pesquisa; na valorização do trabalho coletivo em contraposição à lógica da produtividade a qualquer custo; e na criação de canais reais (e não apenas simbólicos) de escuta para quem atravessa momentos de sofrimento psíquico no ambiente de trabalho.
Cabe ao futuro reitor ter a sensibilidade de montar uma equipe antenada com esse problema, que essencialmente pertence ao novo momento do desenvolvimento das forças produtivas, que se reflete na organização do trabalho e, no caso da UFRN, o reordenamento e a reacomodação das bases estruturais que a formam. Precisamos de um UFRN forte, mas sem o olhar adequado para os(as) docentes e os impactos do “novo mundo” que estão cada vez mais presentes do dia a dia de professores e professoras, um dos pilares da comunidade acadêmica estará adoecida e isso não é bom nem para o ensino, nem para a pesquisa, nem para a extensão, e muito menos para a gestão.
O ADURN-Sindicato reforça que cada texto publicado é de inteira responsabilidade do autor.