Presidente da Capes diz que crise não deverá afetar investimentos em mestrado e doutorado
Presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o professor Jorge Guimarães afirma que a crise que abala os mercados internacionais não deverá atingir substancialmente os investimentos do órgão na pós-graduação stricto sensu do país.
"Toda a área educacional estará priorizada e protegida de eventuais necessidades de corte", disse ele, no último dia 20, em entrevista concedida por telefone. Ainda referindo-se à crise, Guimarães refletiu sobre o aperfeiçoamento de pesquisadores da área de economia: "Vamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo? Este modelo mostrou-se totalmente anticientífico, para dizer o mínimo".
O presidente do órgão, vinculado ao MEC, também anunciou o lançamento de diversos editais, nas áreas de oceanografia, bioenergia e administração. E explicou qual será a nova feição do edital destinado a estudantes interessados em fazer doutorado pleno no exterior (sistema balcão), que deverá sair no dia 1º de dezembro. Em março, a Capes havia suspendido a concessão de novas bolsas nesta modalidade, com exceção para os estudos feitos nos Estados Unidos.
- A crise afetará de algum modo os investimentos feitos pela Capes na pós-graduação stricto sensu do país? A meta do governo, anunciada ano passado, era ampliar o número de bolsas de mestrado e doutorado pagas pela Capes e pelo CNPq, que passariam de 95 mil a 155 mil bolsas em 2010. Esta meta vai permanecer?
Isto está no plano de expansão da ciência e tecnologia (PAC para a área de ciência e tecnologia), liderado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), do qual a Capes faz parte com outros órgãos do governo não diretamente ligados ao MCT. No que diz respeito à Capes, até este instante nós não temos nenhuma informação negativa. Pelo contrário, o presidente Lula tem afirmado que a educação como um todo é prioritária. É claro que alguma coisa sempre poderá afetar nosso planejamento, mas nada de substancial. Não temos expectativas negativas de que a crise possa vir a afetar nosso planejamento, nem que haverá grandes cortes.
- A meta então a princípio permanece?
Permanece. Eu me refiro ao MEC como um todo, não apenas à Capes. Toda a área educacional estará priorizada e protegida de eventuais necessidades de cortes.
- O MEC suspendeu em março a concessão de novas bolsas de doutorado pleno no exterior, com exceção para os estudos feitos nos EUA. Na ocasião, foi anunciada uma reestruturação do programa de bolsas. Esta reestruturação já foi feita?
Nenhuma bolsa foi suspensa. A Capes suspendeu o edital para o ano de 2008 que iria conceder um grupo de bolsas para os candidatos a doutorado pleno, no sistema balcão, para outros países diferentes dos Estados Unidos. Mas isso é muito distante de dizer que suspendemos bolsas. Não havia nenhum candidato ainda. É direito da agência fazer o edital ou não. Não somos obrigados a fazer isso como se fosse algo automático, todo ano. Temos que de vez em quando parar, pensar, rever, fazer um estudo das situações. Por exemplo, quando se decidiu que não se mandaria mais mestrandos para o exterior, foi um susto. A comunidade achou que isso era uma agressão. Mas era mais do que necessário, pois o Brasil hoje, depois dos Estados Unidos, é a maior experiência em mestrado do mundo. Por que vamos continuar mandando mestrando para o exterior? Pelo contrário, o Brasil tem sido procurado por estudantes de muitos países para vir fazer mestrado aqui. Agora o que nós fizemos foi um reestudo da situação do chamado doutorado pleno balcão (no qual o estudante se candidata sem ter passado por nenhuma seleção ou indicação prévia). Todas as outras bolsas que a Capes tem em projetos de cooperação internacional, fora e dentro dos Estados Unidos, não sofreram a menor mudança. Hoje os nossos bolsistas no exterior estão cada vez mais vinculados a projetos de cooperação.
- Poderia explicar como funciona o sistema balcão?
No balcão, a Capes faz um edital, diz quais são as regras, e o estudante que quer ir para o exterior se candidata. E aí ele passa a ser avaliado. Analisa-se se aquele investimento vale a pena ou não. Se ele é numa área em que o Brasil está muito forte, e o país hoje é forte em muitas áreas, seguramente o comitê não vai aprovar. Agora, se for numa área em que o Brasil ainda tem necessidade de mandar gente para o exterior, seguramente mandaremos. No dia primeiro de dezembro sairá o novo edital de doutorado pleno no exterior, sistema balcão, com nova feição, para valer para o ano de 2009. Hoje a única agência que opera substancialmente no doutorado no exterior é a Capes. O CNPq reduziu tremendamente já há alguns anos: concentrou em áreas muito específicas e o número de bolsas é muito pequeno. A Capes é a única que tem um volume grande de bolsistas no exterior. Estamos dando prioridades. São prioritários o doutorado-sanduíche (em que o pesquisador faz somente parte do curso no exterior) e o pós-doutorado. Este último especialmente para jovens que concluíram o doutorado no Brasil, não tiveram a chance de estudar no exterior e que, de preferência, já tenham vínculo empregatício no país, para garantir o retorno. Mais recentemente, introduzimos a graduação-sanduíche. Ou seja, estudantes de graduação, em varias áreas, sobretudo nas engenharias, que vão por períodos variáveis, de seis a 14 meses, para o exterior. E em muitos casos eles têm titulação dupla.
- E qual será a nova feição do edital para o doutorado pleno no exterior, no sistema balcão?
O doutorado pleno do balcão volta a existir a partir do edital novo, para valer no ano de 2009, com algumas mudanças. Nós solicitamos aos coordenadores de cada uma das 47 áreas da Capes e a seus comitês que indicassem os temas de pesquisa em que o Brasil ainda necessita de formação no exterior. Este foi o estudo de 2008. Então, se aparecerem candidatos num desses temas a área estará priorizada. Por exemplo, neste quadro que estamos vivendo hoje, a pergunta em relação à formação de doutores na área economia é: nós vamos continuar mandando alunos para formar doutores num modelo que faliu o mundo? Então nós temos que perguntar a nossa área de economia o que eles vão nos dizer agora. Nós vamos mandar fazer aonde? Vai ser no mesmo modelo? Este modelo mostrou-se totalmente anticientífico, para dizer o mínimo.
- Poderia falar um pouco sobre as áreas em que o envio de alunos para o doutorado no exterior é prioritário?
Há uma área que precisa de formação no exterior: oceanografia. Por que precisa? Nós ganhamos o direito às 200 milhas marítimas. Temos esse enorme patrimônio para cuidar, chamado de Amazônia Azul pelos nossos colegas da Marinha, e não temos recursos humanos para isso. Nessa área nós vamos mandar em grande quantidade jovens para fazer doutorado pleno no exterior. Estamos fazendo um edital que deve ser lançado esta semana com foco no reforço à formação de jovens doutores na área de oceanografia como um todo. Fizemos a mesma coisa com a botânica. Com a biodiversidade brasileira, temos que reforçar a formação dos chamados taxonomistas. Esta é uma outra área que estamos reforçando. A formação no exterior entra nestes casos num outro formato. Não se trata do modelo balcão, mas de um modelo induzido. Nele, o curso de pós-graduação seleciona um grupo de estudantes e diz: estas pessoas estão prontas para ir para a Austrália, ou para a Holanda, para o Canadá. Estamos trocando muito o balcão por esse outro modelo. São necessidades nacionais. Nesse modelo, os cursos são os primeiros a selecionar os alunos. O candidato não vem aqui por livre arbítrio dele porque foi lançado um edital da Capes. Mas, claramente, também continuamos com o balcão.
- O MEC não avalia diretamente hoje os cursos de MBA e outras pós do tipo lato sensu existentes no país. O senhor considera importante criar alguma forma de avaliação para este tipo de pós?
Formalmente, compulsória como temos na pós stricto sensu, não. Poderia ser feita como adesão. Houve um tempo que andaram querendo criar uma Capes privada. Façam uma Capes privada para a avaliação do lato sensu: uma coisa séria, que ganhe um carimbo. Isso será muito bom para garantir aos fregueses, os candidatos a este curso, que aquilo passou por algum processo avaliatório. Hoje ele não passa. Mas eu acho que seria importante ter. Esta é minha opinião pessoal. A Capes não tem fôlego para fazer isso hoje porque ela já está com muita tarefa na sua missão.
- O senhor poderia falar um pouco dos desdobramentos da última avaliação dos cursos de mestrado e doutorado feita pela Capes? Há alguma nova medida que está para ser elaborada em função da última avaliação?
Muitas, uma infinidade. Nós convivemos com o quadro do desenvolvimento do país no dia-a-dia. A avaliação nos orienta, mas a diretoria não avalia. Embora tenhamos quatro votos, geralmente só uma pessoa vota. Eu mesmo procuro não votar. Mas monitoro, pessoalmente. Eu sei as áreas que estão bem, aquelas que não estão, porque não estão. Nós temos um conjunto muito grande de ações novas. Esses editais surgem todo dia. Estamos lançando um de bioenergia. Os Estados Unidos estão interessadíssimos nisso. A Europa toda. Este edital está prontinho, sai provavelmente nesta semana ou na próxima. Vamos lançar um de administração em associação com a Anpad (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração). Temos no ar aberto o de nanobiotecnologia. São milhões de reais em cada uma dessas iniciativas. Foi preciso colocar um operário na Presidência da República para entender que educação, ciência e tecnologia são indispensáveis para o desenvolvimento do país. E eu falo isso porque nós sabemos como era antes.
- O Brasil apareceu em 15º lugar no ranking mundial de produção científica divulgado em julho pela Capes. Mas o desempenho na área tecnológica ficou abaixo disso. Nele, o Brasil ficou na 20ª posição. Nesta ocasião, o ministro da Educação, Fernando Haddad, chegou a afirmar que o desafio brasileiro é transformar conhecimento científico em tecnologia. A Capes aumentou o número de investimentos com este objetivo?
Totalmente. Nós temos um Plano Nacional de Pós-Graduação, que fizemos em 2004 e vale até 2010, em que a prioridade é a engenharia. Temos centenas de projetos priorizados nas engenharias.Temos um programa de ICTs (Instituições Científicas e Tecnológicas), com incentivo fiscal de até 85% de abatimento do imposto de renda nas empresas. A prioridade é máxima. Mas ocorre o seguinte: não se transforma uma coisa dessa do dia para a noite. Quando o PIB do país cresce mais de 4% ao ano, a primeira demanda é a de engenheiro. Estamos com dificuldades em ter candidaturas para o mestrado e doutorado em engenharia. Apesar da nossa prioridade, há algumas restrições. E por que não temos engenheiros? Porque o ensino de matemática e ciência é uma droga. Há uma cadeia de coisas na qual uma vai puxando a outra, criando uma demanda em cima da outra. Temos que criar mecanismos diferentes. Então, temos prioridades nas bolsas para o exterior em engenharia. E aí vamos priorizando, trabalhando nessa linha. Não é fácil priorizar. Mas é preciso coragem e recursos. Nós não temos a menor reclamação em relação a recursos.
- Como o senhor avalia o crescimento da pós stricto sensu no país?
Hoje (dia 20) eu tive uma reunião com os 47 coordenadores de área. O que eu mais insisti foi no planejamento de 2009, de 2010 e no futuro da pós. Nós estamos chegando a quatro mil cursos. Isto cresce 12% ao ano. É um crescimento chinês. Mas não é apenas o número de cursos que cresce. Aumentam as matrículas, o interesse do jovem pela pós-graduação. Há mil leituras para fazer sobre isso. Mas é óbvio que, se existe essa enorme demanda pela pós-graduação, há alguma coisa acontecendo com a graduação, certo? Caso contrário, ela não seria necessária porque o mercado de trabalho absorveria as pessoas. Então, o que nós mais discutimos hoje é o futuro. A próxima avaliação dos cursos será em 2010. Todo mundo já sabe como se faz a avaliação. Isso é muito fácil. Mas não adianta avaliar sem fomentar. Temos a nossa volta países fazendo avaliação que não dão uma bolsa. Ninguém dá bola. É como se ela não existisse. Este é o sucesso da Capes. Ela ficou 24 anos fomentando. Deu as três primeiras bolsas lá em 1952. Passou a avaliar em 1976. E daí para frente foi um sucesso. De fato, diferentemente de outras avaliações, a nossa tem conseqüências. A Capes fecha curso. Pode ser na melhor universidade do Brasil. Foram fechados vários cursos de medicina nas duas últimas avaliações.
- Examinando a última avaliação dos cursos de mestrado e doutorado feita pela Capes, percebemos uma enorme concentração dos cursos com nota máxima (conceito 7) no Sudeste. Dos 164 cursos nota 7, 140 ficam nesta região do país. O que a Capes tem feito em relação a isto?
Estamos tratando de diminuir isso. Já foi muito pior. O Nordeste, por exemplo, já está seguindo muito próximo do Sul. Quem está para trás ainda é a região amazônica e o Centro-Oeste, excluindo Brasília. Também temos no Plano Plurianual ações do chamado Novas Fronteiras, que são: Amazônia, Semi-Árido e Pantanal. O que temos que fazer? Insistir na formação de recursos humanos para lá. Mas levar para estas regiões é uma coisa, formar de lá é outra. Conseguimos levar, mas muitos não ficam. Nossa estratégia é formar pesquisadores de lá porque, neste caso, há muito mais chances de eles permanecerem. É preciso toda uma estratégia para fazer isso. Por que não tem curso de doutorado lá? Porque quase não há capacitação. Os doutores não estão lá, mas aqui. E para ter curso de doutorado é necessário ter doutores. Uma coisa vai puxando a outra. Então, é preciso inventar mecanismos, ter uma criatividade enorme. Um exemplo é o Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (Procad).Temos um que é só para a região amazônica, destinado para a instituição amazônica. Nós tiramos pesquisadores de lá, trazemos para o Sudeste, onde há um bom curso, e depois eles voltam para lá. E aí aumentam muito as chances de fixá-los lá porque eles são da região.