Editorial da semana: Crepúsculo de uma entidade
Uma das grandes lutas populares da sociedade brasileira ocorreu no último quarto do século XX, pela democratização da vida política nacional. Mais precisamente a partir de 1985, com o restabelecimento do Estado democrático representativo. O movimento docente participou desse processo, aglutinando a categoria dos professores do ensino superior sob o guarda-chuva político da ANDES, que a partir de 1988 passou a denominar-se o ANDES-SN, deixando de ser Associação para virar Sindicato Nacional.
Um dos aspectos mais presentes no processo de desenvolvimento das relações sociais, é a dinâmica que está presente nestas ditas relações. As formas de representação não são estáticas e nem impermeáveis às transformações sociais e políticas. Portanto, os agentes políticos se movimentam e se organizam de acordo com o grau de desenvolvimento da sociedade. E a democratização, que tem avançado nesse país, exige que todos os entes que querem fazer-se representante de alguma categoria, grupo social, etc, adéquem suas instâncias internas, aprofundando cada vez mais a participação das bases nos processos de discussão e deliberação.
O XXVIII Congresso do ANDES-SN, que está com seu registro sindical suspenso desde dezembro de 2003, realizado recentemente em Pelotas (RS), demonstra claramente que quando uma organização mergulha na ortodoxia e fossiliza suas estruturas internas, acaba por se distanciar da realidade que a cerca. A pretensão de barrar as discussões que tem se desenvolvido na categoria docente, especialmente das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), através de medidas restritivas, é inócua quando boa parte dessa mesma base já questiona a representatividade do ANDES-SN.
Numa manobra descabida, a Assembléia, que não fora convocada para isso, resolveu alterar, de forma casuística, o Estatuto do ANDES-SN, proibindo o voto por procuração. Não em nome do aprofundamento da democracia interna, uma falácia repetida enfadonhamente pelas diretorias que tem dirigido a entidade, mas para supostamente proteger o sindicato de ataques das Associações Docentes (AD’s) rebeldes, como observou cinicamente o ex-presidente Roberto Leher, famoso por seus discursos truculentos.
Não se trata de defender ou atacar o voto por procuração, mas sim de deixar claro que uma estrutura verticalizada e anacrônica, como é a do ANDES-SN, é uma ameaça concreta à autonomia das supostas seções sindicais. A “proibição” só revela o temor que impulsiona a elite dirigente do ANDES-SN por fechar-se sobre si mesmo. Por que não debater com as bases sobre o real significado político do voto por procuração, quando é mais fácil simplesmente proibir o debate? Essa é a lógica da truculência, e foi ela que prevaleceu no Congresso.
O obscurantismo do ANDES-SN não parou por ai. Numa outra votação os delegados desconsideraram a autonomia das ditas seções sindicais e simplesmente rejeitaram a realização de um plebiscito, a ser feito nas suas pretensas bases, que perguntasse às mesmas se a Direção Nacional deveria aceitar, ou não, a negociação com a CONTEE, sob o argumento de que aquele era um assunto superado.
A face anti-democrática do ANDES-SN finalmente se revelou de forma clara e direta. Não se trata de aprofundar o debate acerca da crise que está presente na nossa organização sindical, mas de escamoteá-la, de impedir sua discussão madura e respeitosa. O definhamento ideológico dessa entidade chegou ao seu ápice e o “ortodoxismo” o levou a produzir decisões absolutamente destoantes da evolução democrática da sociedade brasileira.
A Diretoria da ADURN, rompida politicamente com o ANDES-SN, rejeita terminantemente que uma entidade vertical e anti-democrática, ataque sua autonomia e alerta a categoria docente da UFRN, que é necessário construir uma organização verdadeiramente democrática, plural e independente, que aprofunde o debate democrático com suas bases e que se torne o efetivo representante dos professores da UFRN.