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Saúde mental das mulheres na universidade exige debate coletivo sobre trabalho, desigualdade e cuidado

Publicado em 13 de Março de 2026 Por ADURN Sindicato

O mês de março costuma ser marcado por homenagens e celebrações em torno do Dia Internacional das Mulheres. Mas, para além das datas simbólicas, cresce dentro das universidades o debate sobre as condições concretas que atravessam a vida das mulheres que trabalham nesses espaços. Embora sejam maioria em diferentes áreas do ensino superior, muitas continuam enfrentando jornadas intensas, pressões por produtividade, responsabilidades de cuidado e formas diversas de violência que impactam diretamente sua saúde mental.

Na universidade, essas pressões aparecem de diferentes maneiras. A exigência de produzir, ensinar, pesquisar, orientar, participar da gestão acadêmica e ainda lidar com tarefas administrativas se soma, em muitos casos, ao trabalho doméstico e de cuidado que segue recaindo majoritariamente sobre as mulheres. O resultado é um cotidiano marcado por sobrecarga e por uma sensação permanente de que o tempo nunca é suficiente para dar conta de todas as demandas.

Para a professora de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e diretora do ADURN-Sindicato, Fernanda Gurgel, o mês de março precisa ser entendido como um período de mobilização e reflexão coletiva sobre a realidade vivida pelas mulheres. Ela ressalta que discutir o tema implica reconhecer a diversidade de violências que continuam presentes na sociedade.

A professora explica que, diante desse cenário, o ADURN-Sindicato decidiu eleger a saúde mental como uma das pautas centrais de debate ao longo de 2026. A proposta, segundo ela, é ampliar a discussão sobre o tema dentro da universidade e também desenvolver ações voltadas para essa questão.“ Uma pauta atual no mundo que vai ser discutida durante todo o ano de 2026 pelo ADURN-Sindicato, e que temos escolhido para ser debatida e para termos ações também direcionadas a esse tema, é a saúde mental. A saúde mental como direito humano. A saúde mental não só como uma manifestação individual, de responsabilidade individual, mas principalmente a saúde mental entendida como uma construção social e uma construção histórica”, explica.

Ao abordar a relação entre trabalho e saúde mental, a diretora do sindicato observa que os ambientes e as formas de organização do trabalho exercem influência direta sobre o bem-estar das pessoas. Segundo ela, dependendo de como são estruturadas, as relações de trabalho podem tanto promover cuidado quanto gerar sofrimento. “Entendemos que o trabalho, que os ambientes de trabalho e as formas de trabalhar tanto podem ser promotoras de saúde e de cuidados, mas também de adoecimentos diversos e podem gerar sofrimentos”, afirma.

Nesse contexto, as mulheres acabam sendo particularmente impactadas por essas condições. Fernanda ressalta que “ as mulheres acabam sendo as maiores impactadas por esse debate, porque acumulam pressões no contexto do trabalho, jornadas exaustivas, metas inalcançáveis. Em alguns casos, recebem um salário inferior ao salário dos homens e, em paralelo, também acumulam jornadas exaustivas de cuidado e afazeres domésticos, realizando trabalhos invisíveis e pouco reconhecidos”.

Para aprofundar essa discussão, a reportagem conversou também com a professora Sabrina Cavalcanti Barros, docente de Psicologia da Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi da UFRN, que coordena uma pesquisa sobre condições de trabalho e qualidade de vida entre os servidores da universidade. 

Confira a entrevista completa:

Professora Sabrina, você pode explicar brevemente do que se trata a pesquisa?
“É uma pesquisa que é coordenada por mim, junto com o professor Antônio Alves Filho, do curso de Administração Pública, e teve como objetivo explorar a relação entre condições de trabalho e qualidade de vida no trabalho dos servidores aqui da universidade, tanto docentes como técnicos administrativos, em todos os campi da universidade.

Nessa etapa atual, nós realizamos entrevistas semiestruturadas com esses servidores, a partir das quais abordamos temas como condições de trabalho, saúde mental no trabalho, qualidade de vida no trabalho e prestígio organizacional, considerando que foi um período em que a produção científica, o saber científico, foi duramente criticado pela sociedade e também a própria experiência com a pandemia.

Nesse momento, nós estamos ainda realizando a análise de conteúdo dessas entrevistas, que ainda se encontram em andamento.

Então, o que eu posso destacar até o momento é que a sobrecarga de trabalho tem aparecido na fala desses participantes como um dos principais fatores que têm impactado a saúde mental deles, antes da pandemia, durante a pandemia e após o retorno às atividades presenciais. Há inclusive alguns entrevistados que indicaram sentir a sobrecarga de trabalho ainda maior desde que retomamos as atividades presenciais.”

Sabrina, a partir da sua pesquisa sobre a saúde mental dos trabalhadores e trabalhadoras da UFRN, quais são os principais fatores que têm impactado a saúde mental das docentes? Há especificidades quando olhamos para as mulheres?


“No caso das mulheres, o que eu tenho observado é que, para além da sobrecarga de trabalho já sinalizada, elas destacam também a dupla jornada de trabalho. Eu me lembro de uma servidora que relatou ter tido a necessidade de trabalhar muitas madrugadas para dar conta das atividades domésticas e das atividades de trabalho.

A respeito disso, é importante observar que, quando a gente fala da dupla jornada de trabalho, essa dupla jornada, na maioria das vezes, é feita de maneira solitária por essas mulheres, sem nenhum ou com pouquíssimo suporte do seu cônjuge ou de outros membros da família, quando é o caso.

É um aspecto do trabalho da mulher que não deve ser desprezado. Inclusive, quem debate sobre relações de gênero no trabalho sabe que esse aspecto é extensivamente debatido e que acontece não só aqui, como entre servidores, mas em outras ocupações e profissões também. É um dos desafios das mulheres no mercado de trabalho, certamente.”

Professora Sabrina, de que forma a sobrecarga que envolve ensino, pesquisa, extensão, tarefas administrativas e, muitas vezes, o trabalho doméstico e de cuidado aparece nos dados e relatos da sua pesquisa?


“Acerca da sobrecarga, os participantes destacam o excesso de atividades e tarefas que eles precisam cumprir e para as quais se sentem pressionados. Isso tanto no ensino como na pesquisa, extensão e nas atividades administrativas que eles precisam assumir.

Outro aspecto que eles levantam tem a ver com a redução do quadro de servidores efetivos, o que faz com que determinadas atividades que são realizadas especificamente por esses efetivos acabem se acumulando para aqueles que ficam.

Um outro ponto também que eu gostaria de trazer aqui para a gente pensar tem a ver com a questão da dedicação exclusiva, o ser DE. E aí é interessante porque essa dedicação exclusiva, na fala dos entrevistados, aparece mais como um aspecto simbólico do trabalho, já que eles mencionam trabalharem muito mais além das 40 horas semanais previstas.

Alguns servidores inclusive indicam que trabalham cerca de 60 horas semanais e, obviamente, isso vai prejudicar as demais esferas da vida. Até o momento, as esferas mais citadas como prejudicadas em decorrência do trabalho são a família e o lazer.”

Sabrina, na sua avaliação, o debate sobre saúde mental nas universidades ainda é tratado como uma questão individual ou já é reconhecido como um problema estrutural, relacionado às condições de trabalho e às desigualdades de gênero?


“Olha, essa pergunta é bem interessante. A começar por essa relação de trabalho e saúde que não é consensuada em nossa comunidade. Nessa pesquisa, até o momento, os resultados têm indicado que há um reconhecimento da relação entre trabalho e saúde para a maior parte dos entrevistados. Mas veja, há servidores que não reconhecem essa relação. Isso, para mim, por si só já é uma informação bastante relevante e preocupante e acho que a nossa universidade precisa se debruçar para compreender um pouco essa questão.

O que eu observei também a respeito das entrevistas é que, apesar desse reconhecimento entre trabalho e saúde, as estratégias adotadas para lidarem com o sofrimento provocado pela experiência do trabalho, dessa sobrecarga de trabalho e até pela precarização do trabalho de uma maneira mais geral, se restringem ao âmbito individual.

E aí os participantes citam uso de medicação controlada, aumento no consumo de bebida alcoólica e uso de atividades de relaxamento e descontração. Veja que nenhuma dessas atividades ou ações que eu citei toma o trabalho como centro de uma ação, de uma intervenção para promoção de saúde e bem-estar nesse ambiente de trabalho. É como se o trabalho e as outras esferas de vida estivessem totalmente separados.

E eu acho que é um dado importante porque reflete que esses aspectos concretos do trabalho, que contribuem de fato para esse sofrimento e esse adoecimento, estão ali inalterados e que não sofreram ainda nenhum tipo de intervenção que possa de fato contribuir para melhorias na qualidade de vida desses trabalhadores.

Há também, eu acho que é importante destacar, a menção ao suporte oferecido pela universidade. Só que essa menção também tem posicionamentos bem divergentes.

Alguns se sentiram extremamente contemplados pelo suporte oferecido pela universidade, enquanto outros consideraram que esse suporte não foi uma prioridade da universidade ou que as ações foram bastante pontuais ou mesmo inexistentes. E aí, quando a gente destrincha um pouco isso com alguns desses servidores, eles fazem muito uma associação da intervenção também no âmbito individual. E aí eles reconhecem que é uma comunidade maior para uma equipe muito pequena dar conta.

Com relação à desigualdade de gênero, até o momento, as entrevistas já codificadas não apresentam nenhum aspecto específico que eu pudesse trazer aqui para vocês, mas é importante destacar que esse tema é um tema bem sensível e que atravessa todas as universidades públicas federais do Brasil e outras categorias ocupacionais e profissionais também.

E essa desigualdade no âmbito da universidade se manifesta, dentre outros aspectos, na questão dos cargos de chefia e de gestão, principalmente os mais elevados, que a mulher tem mais dificuldade de assumir.

Também se manifesta ou se reflete nos editais e nos estímulos que a universidade oferece e proporciona para o seu quadro de servidores. E aí os homens entram em uma vantagem competitiva maior do que as mulheres, sobretudo aquelas que vivenciam a maternidade. E temos também o tema do assédio moral e sexual, cujas vítimas em sua maioria são mulheres.

Então é um tema que merece atenção porque, junto com as condições de trabalho, são potencializadores de um processo maior de sofrimento e adoecimento dessas servidoras.”

Para finalizar, que medidas institucionais poderiam ser adotadas para promover um ambiente mais saudável para as docentes?

“Eu acho que é um tema bastante complexo porque envolve mexer estruturalmente nos processos de trabalho e na forma com que a própria universidade está estruturada. Mas eu acho também que é preciso reconhecer o esforço da universidade em buscar melhorias na promoção da saúde e bem-estar no trabalho. E aí eu destaco inclusive que a Progesp tem um programa específico para isso. E tem oferecido diversas ações nessa direção. 

No entanto, o que eu gostaria de chamar atenção é que essas ações, inevitavelmente, precisam trazer para o centro do debate o trabalho, o trabalho que tem sido realizado por toda a comunidade acadêmica, por todos os nossos servidores. E isso exige uma discussão mais ampla que vai contemplar diferentes níveis de análise institucionais.

Também é importante pensar que, quando a gente está falando da UFRN, estamos falando também de um espaço que possui intrinsecamente diversidades. Nós temos a sede na capital, mas também temos a UFRN implantada no interior, em outras cidades aqui do estado, e cada unidade dessas, cada centro acadêmico, possui suas especificidades.

Então é preciso olhar para as políticas institucionais da universidade e pensar quais são aquelas que levam em consideração as especificidades do interior, por exemplo, não só as especificidades da sede.

Eu acho que também é importante entender que estamos falando de um problema que não é circunscrito à UFRN apenas. Estamos falando de um problema mais amplo, que atravessa todas as universidades públicas federais do nosso país. E aí eu entendo que é importante que a universidade resgate também esse papel político dela de valorização do trabalho, de resistência contra a lógica neoliberal, desse processo de desmonte que a universidade tem enfrentado nesses últimos anos.

E eu também queria chamar atenção para a importância do papel do sindicato nesse processo como espaço coletivo que congrega seus servidores e que tem um potencial de fomentar uma discussão mais séria sobre essas questões de precarização do trabalho e também de promoção da saúde e bem-estar do trabalhador. Eu acho que é um espaço importante, necessário, que está sendo muito pouco aproveitado por nossos servidores.

O ADURN-Sindicato agradece às professoras Fernanda Gurgel e Sabrina Cavalcanti Barros pela disponibilidade em contribuir com a reflexão sobre o tema. Em um momento em que o debate sobre saúde mental ganha cada vez mais espaço, ouvir quem pesquisa e vive o cotidiano da universidade é fundamental para ampliar a compreensão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres e fortalecer a construção de ambientes de trabalho mais justos e saudáveis.



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