O sofrimento sem fim dos moradores do Sul do Pará é tema do livro lançado em Natal

Publicado em 13 de novembro de 2014 às 11h51min

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Na noite desta quarta-feira (12), a Universidade Federal do Rio Grande do Norte foi palco do lançamento da obra "ARAGUAIA: DEPOIS DA GUERRILHA, OUTRA GUERRA - A luta pela terra no Sul do Pará, impregnada pela Ideologia da Segurança Nacional (1975-2000)". O auditório da Biblioteca Central Zila Mamede reuniu a comunidade acadêmica, militância comunista, amigos e pessoas interessadas em ouvir a história do sofrimento dos moradores da região do Bico do Papagaio, no Sul do Pará, que após quase 40 anos do fim de um dos mais importantes e emblemáticos movimentos de resistência e combate à Ditadura Militar no Brasil, permanece sem ponto final.

A solenidade foi marcada por uma exposição do autor, o professor da Universidade Federal de Goiás, Romualdo Pessoa, e integrou a programação do XXII Encontro Nacional de Geografia Agrária, promovido pelo departamento de Geografia e o programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da UFRN.

A obra, uma publicação da Editora Anita Garibaldi em co-edição com a Fundação Maurício Grabois, é uma continuação da pesquisa iniciada em 1992, que se tornou dissertação de mestrado em 1995 e foi publicado em 1997, "A Guerrilha do Araguaia - A esquerda em armas".

No lançamento, ao ponderar que ainda hoje há perseguição aos moradores da região, Romualdo falou os motivos que o fizeram despertar para necessidade de continuar estudando o que aconteceu com os camponeses depois da Guerrilha.

Segundo o professor, durante a pesquisa, buscou compreender como os camponeses viveram nessa região marcada pelo movimento guerrilheiro e de que forma a repressão, que permaneceu na região, se abateu sobre os moradores.

Para Romualdo Pessoa, foi dado um poder muito forte ao major Curió que exerceu um controle grande na região, ultrapassando os limites do local onde aconteceram os conflitos da Guerrilha do Araguaia. O historiador lembrou que Curió já foi prefeito, deputado federal, interventor em Serra Pelada e até deu nome a uma cidade: Curionópolis.

Com base em documentos do Serviço Nacional de Segurança (SNI), do Centro de Informações do Exército (CIE) e do Centro de Inteligência da Aeronáutica (Cisa) —, Romualdo Pessoa constatou que boa parte dos conflitos que existiram ali teve a terra como elemento principal da disputa, mas que por trás disso havia uma rede densa de informações, o que permitiu estabelecer uma relação com a maneira como a área estava sendo monitorada.

O livro analisa a região onde aconteceu a guerrilha no período posterior ao movimento guerrilheiro, entre os anos de 1975 (final da guerrilha) e o ano 2000. Durante esse período, a luta pela terra, o advento de Serra Pelada e a organização dos camponeses, tornaram o Sul do Pará a região mais violenta do país. Por todo este tempo, o monitoramento dos órgãos de segurança estiveram presente na região e foram cúmplices e coniventes, e até atuantes diretamente, nos assassinatos de centenas de camponeses e de lideranças políticas, comunistas e religiosas.

Romualdo observou ainda como toda a ideologia e práticas militares do regime ditatorial são mantidas na região, garantindo a impunidade para assassinatos de lideranças camponesas, sindicais, clericais que buscam defender os direitos da população mais pobre.

Presente ao lançamento, a viúva do guerrilheiro do Araguaia, Fátima Sá, considera o livro uma importante ferramenta para a democracia brasileira ao desvendar a maneira como a ideologia de Segurança Nacional influenciou e continua presente na forma como os conflitos agrários são debatidos. Ela ressalta a importância em abordar esta questão na visão de diferentes protagonistas e documentos, formando a história, por muito tempo oculta, a respeito do tema.

Foram registradas ainda as presenças do presidente estadual do PCdoB, Antenor Roberto, do membro do comitê estadual do Partido e secretário de Regularização Fundiária do município de São Gonçalo do Amarante, Canindé de França, da filha e da neta do guerrilheiro Glênio Sá, Jana Sá e Ana Beatriz de Sá, e da presidente do comitê municipal do PCdoB em São Gonçalo, Ana Cristina.

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