Em palestra na UFRN, Stédile faz leitura da situação do Brasil do ponto de vista da luta de classe

Publicado em 03 de maio de 2019 às 10h37min

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Na mesma semana em que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que enviará à Câmara dos Deputados projeto que isenta de punição proprietários rurais que atirarem em invasores de suas áreas, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi palco de debate sobre o campo e a conjuntura brasileira que envolve a natureza do governo e a reação dos movimentos populares e da sociedade civil organizada.

“Acompanhamos estarrecidos a visita do presidente eleito à Feira do Agronegócio, em Ribeirão Preto, e o anúncio de um projeto que tira a punição dos crimes dos fazendeiros à vida humana. Fere a Constituição, que coloca como objetivo da nossa sociedade em primeiro lugar a preservação da vida. A propriedade privada de bens está subordinada a proteção e valorização da vida humana”, argumenta o economista João Pedro Stédile, dirigente nacional do MST.

Com afirmativa de que a Universidade de caráter público deve estar voltada mesmo para os problemas do povo, Stédile falou para uma paleteia de pesquisadores, estudantes, trabalhadores de diversas categorias, da cidade e do campo, parlamentares e representantes dos movimentos sociais e sindicais na noite desta quinta, 02, no auditório da Escola de Música da UFRN.

Na palestra sobre “Os impactos das política econômicas no campo”, Stédile fez uma leitura da situação do Brasil do ponto de vista da luta de classe, na disputa pelo poder político, que, para ele, é maior que a disputa eleitoral e institucional. “Gramsci falava no poder ampliado. A luta deve ser por espaços na sociedade. Desde os sindicatos, à emissora comunitária, a um padre numa missa. E Lênin afirmou que, quando o povo começa a se mobilizar e lutar, aprende em vinte dias o que deixou de conhecer durante vinte anos. A esperança é que logo chegaremos aos vinte dias”.

De origem católica, Stédile explicou que uma das iniciativas políticas adotadas pelo papa Francisco, a quem considera um líder carismático, foi se aproximar de movimentos populares. Foi se montado um formato de interlocução e desde então, todos os anos, um pequeno grupo vai à Roma, incluindo o próprio Stédile, para debater questões sociais como miséria, violência, desemprego, imigração e uso de agrotóxicos. A cada dois anos uma plenária é realizada com mais gente, de todos os continentes, em que essas preocupações são colocadas em um texto. Após estudado, o Papa por fim se pronuncia acerca de várias questões. "E geralmente ele está mais à esquerda que todos nós".

Ao abordar a questão agrária no mundo, sobretudo no Brasil, Stédile explica que, depois de uma reforma agrária incompleta, o MST vem defendendo, desde 2005, uma que seja "popular" e envolva a oferta de educação em todos os níveis, uma transição para a agroecologia —produção sem agrotóxicos— e trazer a agroindústria com mais força, como já ocorre em alguns assentamentos. "A agroindústria é mais que capitalismo, é pelo progresso econômico, é o que agrega valor à sua matéria-prima, aumenta a sua renda, atrai o jovem que vai para a universidade e não quer pegar na enxada, dá emprego para as mulheres, te conecta com o resto da sociedade. Quem vai dar a máquina? A indústria. Quem compra o leite? O supermercado".

Na avaliação de Stedile, “o Brasil precisa de um novo modelo agrícola que não esteja fundado no lucro e na produção de commodities para o exterior. O agronegócio como modelo de economia nacional já está falido. É uma burrice utilizar um território tão amplo como o brasileiro (300 milhões de hectares agriculturáveis), com soja, cana, milho, pecuária. Nenhuma economia do mundo pode se sustentar em dois ou três produtos agrícolas para exportação. E competimos com os EUA. Comprar briga com a China, que é nosso parceiro, é uma burrice. Essas contradições da geopolítica internacional vão aflorar mais rápida ao que imaginávamos”.

Para um projeto de verdadeiro desenvolvimento nacional, diz, “precisamos usar esses 300 milhões de hectares de forma mais racional. Temos que produzir alimentos saudáveis para toda a população, estimulando a pluricultura, não a monocultura. Todas as exportações de carne bovina no brasil representam 5 bilhões de dólares. A Embraer, sozinha, com os seus 100 hectares em São José dos Campos e doze mil operários e alta tecnologia exporta por ano 6 bilhões de dólares. A Embraer é mais importante para a economia brasileira do que a pecuária extensiva”.

Ao final, Stédile ressaltou a necessidade em se fazer um novo debate no país, sobre um “novo projeto soberano para uma sociedade igualitária e justa. Como a campanha eleitoral foi baseada na mentira e na luta contra mentira, nós não discutimos programa, não discutimos um projeto estrutural para o país. Agora temos que recuperar esse debate e nos próximos meses e anos, reconstruir uma unidade popular entorno de um projeto. Um programa de soluções para o povo, porque do outro lado, do governo, não virá”.

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