“A crise não é política, a crise é do capital”, afirma Alysson Mascaro em lançamento de livro

Publicado em 15 de novembro de 2019 às 23h35min

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Partindo da afirmativa de que a crise não é política, mas sim do capital, o jurista e professor da USP, Alysson Mascaro, lançou o livro “Crise e Golpe”, durante a sétima edição do Projeto “Diálogos”, realizada nesta quinta-feira (14). Com o tema “Direito e Estado na Crise Contemporânea”, a conferência lotou o auditório do Núcleo de Pesquisas em Ciências Aplicadas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (NEPSA I).

A sétima edição do Projeto Diálogos contou com a parceria do Núcleo de Estudos Marxismo, Emancipação e Direito (NEMED) e com o apoio do Grupo de Estudos Seguridade Social e Trabalho (GESTO-UFRN).

Voltado para uma plateia majoritariamente composta por estudantes e docentes do curso de Direito, Mascaro destrinchou ao longo de uma hora e meia a complexa relação entre Estado, direito e formação social.

“Nós temos efetivamente um quadro do qual a dor do povo é advinda daquilo que é a objetividade de uma sociedade em crise e que não consegue se levantar, pois esta crise é estrutural”, disse Mascaro. O jurista foi taxativo ao afirmar que o sistema Capitalista está falindo, o que, para ele, não é motivo de lamentação. “Temos que deixar de lado as lágrimas por causa de um sistema que está em crise, pelo contrário, nós devemos é sorrir por outro momento, outro modo de organizar a sociedade, que há de vir, e nós devemos lutar por ele”, afirmou.

Alysson Mascaro, no entanto, julga que não é isso que está sendo feito. De acordo com a interpretação do jurista, em vez da luta por uma nova organização da sociedade, via de regra, o que se faz é a administração desse sistema social de exploração, com o objetivo de aumentar sua qualidade, o que segundo ele não é o ideal.

Partindo desse ponto de vista, Mascaro fez um resgate histórico acerca dos direitos sociais adquiridos ao longo dos anos no Brasil – especialmente na Era Vargas - e que, após o golpe de 2016 vêm sendo retirados. “Essas conquistas do ‘Varguismo’ para muita gente, talvez para noventa e nove por cento das pessoas, são chamadas de comunismo, de socialismo. Socialismo na leitura dessa gente é assim: o capital é do capitalista, o trabalhador ganha ‘milão’, tem décimo terceiro e não pode trabalhar 17 horas por dia”, pontuou Mascaro.

Frente à retirada de direitos, o jurista colocou que a esquerda do Brasil e do mundo hoje está lutando para que se restaure o patamar mínimo de mil reais para a exploração da classe trabalhadora. Diante disso, Alysson Mascaro reitera a necessidade de não insistir na sustentação do sistema Capitalista. “Tenham a alegria de dizer que a crise é a prova de que esse sistema está em falência, é preciso acelerar a construção de uma outra organização da sociedade”, reforçou.

Na visão de Mascaro, dizer como o capitalismo vai mal não é a solução. “Se nós tivermos efetivamente uma rede internacional de pessoas que possam ter a coragem de dizer que é preciso começar a mobilizar o povo pela palavra cientificamente apropriada e mais bonita, que se chama socialismo, a energia que isso gera é maravilhosa, é espetacular”, disse.

O jurista ainda ressaltou a necessidade da utilização dos meios de comunicação em favor da transformação social, destacando através de exemplos como esses meios atualmente são utilizados como estrutura de aparelhamento ideológico da direita. “Imagina se em 1980 os sindicatos dos trabalhadores do Brasil tivessem falado o seguinte: ‘cada um compra uma rádio’, então ao invés da rádio ‘Jovem não sei o quê lá’, houvesse a ‘Rede Nacional das Rádios dos Trabalhadores e Trabalhadoras’. Se qualquer pessoa pegasse o carro e ligasse nessa Rede que informa, ‘Evo Morales sofreu um golpe’, se nós tivéssemos isso, teríamos um povo aparelhado ideologicamente, só que a gente tem um povo aparelhado ideologicamente conservador”, exemplificou. “Nós infelizmente choramos para dentro e nos esquecemos de enraizar a aparelhagem ideológica da luta”, acrescentou.

Alysson Mascaro concluiu a conferência afirmando: “Se um dia virar a página da esquina da vida e em uma dessas dobras de novo pudermos falar para o povo - coisa que hoje nós não conseguimos - se nós conseguirmos ter condições de luta social novamente, nós não podemos errar como erramos (...) O povo só se emancipa por luta, não por leis”.

A conferência na íntegra pode ser assistida em nossa página do Facebook.

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