Para impeachment de Bolsonaro, falta reação dos governadores e da sociedade

Publicado em 03 de março de 2021 às 12h46min

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Segundo o cientista político Cláudio Couto (FGV), governadores devem mobilizar suas bases e redes de apoio para barrar Bolsonaro

São Paulo – De acordo com o cientista político Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), as condições para o impeachment do presidente Jair Bolsonaro “estão dadas”. Enquanto sobram crimes de responsabilidades, ele segue sabotando o combate à pandemia do novo coronavírus.

Em vez de coordenar os esforços em nível nacional, Bolsonaro abriu novo “conflito aberto” com os governadores. Nesta semana, ele anunciou que os estados que adotarem medidas restritivas deverão bancar o auxílio emergencial.

Para Couto, falta justamente uma atuação política mais efetiva dos governadores e prefeitos contra as atitudes do presidente. Trata-se de figuras políticas que também foram eleitas, e têm grande influência sobre as bancadas estaduais na Câmara dos Deputados. Além disso, segundo o analista, setores da sociedade civil também deveriam abandonar posturas particularistas, em nome dos seus interesses privados, para abraçar causa maior, em defesa do país.

“Enquanto prefeitos e governadores estão se dando conta do cataclismo que estamos vivendo e tentam tomar providências, o presidente vai no sentido oposto. Ele nega a gravidade da pandemia. Por conta disso, Bolsonaro pode ser claramente colocado ao lado dos grandes vilões da história política da humanidade”, declarou Couto, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual desta quarta-feira (3).

Bolsodoria

Couto criticou também a postura do governador de São Paulo, João Doria. Depois de se apresentar nas eleições como “Bolsodoria”, ele se afastou de Bolsonaro, se tornando um dos seus maiores adversários. Apesar dessa guinada, ainda adota posturas que se assemelham a do seu rival, outrora aliado. Ele não só assinou decreto classificando as igrejas como atividade essencial, como usou tal medida para se promover nas redes sociais junto ao público religioso em especial, base do bolsonarismo. “É um ato demagógico, que não condiz com deveres de um governador, ainda mais num cenário de catástrofe como estamos vivendo.”

Miopia empresarial

Por outro lado, Couto afirma que as lideranças empresariais deveriam apoiar também a volta do auxílio emergencial, em nome do bem-estar geral da sociedade diante do avanço da pandemia. Em vez disso, lutam apenas pela manutenção das suas atividades econômicas, também incorrendo na mesma lógica bolsonarista que “privatiza” decisões que deveriam ser coletivas.

“Bolsonaro opera com uma lógica de que a liberdade é cada uma das pessoas fazer aquilo que bem entende. Em vez de atuar como uma sociedade, como uma coletividade organizada. Mas ele compartilha essa perspectiva com boa parte do meio empresarial”, pontua. “Ou as lideranças, inclusive do setor empresarial, se conscientizam dessa necessidade de se articular politicamente para tomar providências que levem à saída dessa crise de forma sustentada, ou vamos ter todo mundo morrendo abraçado.”

Além do individualismo, Couto atribui essa inação ao histórico de violência do país, que provoca um “anestesiamento” diante das centenas de milhares de mortos durante a pandemia. “O brasileiro, ao votar para a presidência da República em 2018, elegeu a morte. A morte nos representa. É por isso que somos insensíveis como sociedade. Fomos nos anestesiando com a morte, a violência, a incúria e o descaso. E até mesmo o sadismo que uma situação como essa produz.”

Fonte: Rede Brasil Atual

 

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