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Debatedores criticam PEC dos precatórios durante audiência na Câmara

Publicado em 07 de Outubro de 2021 Por ADURN Sindicato
Debatedores criticam PEC dos precatórios durante audiência na Câmara

Para OAB, adiar o pagamento dos precatórios pode gerar uma "bola de neve" nas despesas do governo

Representantes da OAB e CNTE, presentes na comissão, criticaram a PEC dos precatórios (Gustavo Sales/Câmara dos Deputados)
 

Deputados e representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) criticaram nesta quarta-feira (6) a proposta de emenda à Constituição que parcela precatórios (PEC 23/21), ou seja, as dívidas do setor público reconhecidas pela Justiça. Boa parte é devida entre os próprios entes da Federação.

De acordo com a PEC, até 2029, os precatórios com valor acima de 60 mil salários mínimos (ou R$ 66 milhões, atualmente) poderão ser quitados com entrada de 15% e nove parcelas anuais. Precatórios de até 60 salários mínimos (hoje R$ 66 mil) sempre serão quitados a vista. Ainda segundo a PEC, outros precatórios poderão ser parcelados se a soma total vier a superar 2,6% da Receita Corrente Líquida (RCL) da União. Nesse caso, o parcelamento começará pelos de maior valor.

Segundo os participantes de audiência pública na comissão especial que trata do assunto, a PEC, que foi apresentada pelo governo federal, não traz uma solução definitiva para o problema e configura calote em credores e "pedalada fiscal", prejudicando principalmente o pagamento de dívidas cujos recursos devem ser utilizados na educação.

Assim como outros especialistas críticos da PEC, o presidente da Comissão Especial de Precatórios da OAB, Eduardo Gouvêa, disse que a proposta viola princípios constitucionais como o devido processo legal, a coisa julgada e o direito adquirido e que, portanto, será alvo de discussão no Supremo Tribunal Federal (STF), que já entendeu como inconstitucional, anteriormente, o parcelamento de precatórios.

Ainda segundo Gouvêa, o parcelamento poderá criar um problema econômico para o futuro. “O caixa da União tem R$ 1,7 trilhão disponíveis. Aqui está se falando em pedalar R$ 30 bilhões, R$ 40 bilhões, R$ 50 bilhões. Não representam nem 3% desse valor que se tem em caixa”, explicou. “Não precisamos deixar de pagar os precatórios. Se o pagamento for adiado, pode gerar uma bola de neve de R$ 672,4 bilhões a R$ 1,4 trilhão até o fim de 2036.”

Como soluções para o problema, Eduardo Gouvêa sugeriu medidas como compensação fiscal, conciliação e mediação, empréstimos privados e financiamento direto aos entes públicos ou aos credores pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Educação
Já o presidente da CNTE, Heleno Araújo, chamou a atenção para os precatórios relativos a dívidas do antigo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef).

“É uma dívida que cabe aos estados e municípios que não receberam, no tempo exato, os recursos devidos pela União. Esses recursos têm destinação: 60% são para salário de professoras e professores que atuam nos municípios, nas redes estaduais e no Distrito Federal. Os outros 40% são para salário dos demais profissionais da educação e a manutenção e desenvolvimento da educação em nosso país.”, detalhou Araújo.

O pedido dele é para que os parlamentares arquivem a PEC 23/21 e que o problema seja trabalhado de outras formas.

Questão política
Já parlamentares que solicitaram a audiência pública enxergam na proposta uma questão política. O deputado Idilvan Alencar (PDT-CE) acredita que os interesses do governo são eleitorais, ao pretender destinar recursos de dívidas judiciais para programas sociais como o Auxílio Brasil.

“Sob o ponto de vista do credor, é calote. Se é calote quando não paga alguém, por que para a União não é calote? Sob o ponto de vista fiscal, é pedalada. Sob o ponto de vista político, é chantagem. O ministro [da Economia] Paulo Guedes pergunta se vamos pagar precatório ou vamos aumentar os recursos de programa social”, afirmou Alencar.

Também o deputado José Ricardo (PT-AM) apontou “chantagem” do governo para com o Congresso e a população. “Essa história de pegar o dinheiro dos precatórios para garantir o Bolsa Família é demagogia. Sabemos que o governo tem instrumentos para garantir.”

Por sua vez, o deputado Enio Verri (PT-PR) lamentou que dinheiro da educação seja sacrificado pela PEC. “Dá para ajudar o governo nisso aí. Não precisa atingir o Fundef nem os pequenos recebimentos. Trata-se de uma escolha.”

O deputado Leonardo Picciani (MDB-RJ), que conduziu a audiência, atentou para as responsabilidades da comissão especial. “Mudar a Constituição é coisa séria. Se estamos discutindo essa questão, é importante que façamos sob a óptica de resolver e estruturar de forma permanente. Que a gente encontre o modelo que melhor atende aos anseios da população, para que a gente garanta o direito de quem tem uma dívida a receber e garanta previsibilidade a quem tem o dever de pagar”, ponderou.

O relator da PEC, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), poderá apresentar seu parecer à matéria nesta quinta-feira (7).

Outras audiências
A audiência desta quarta foi a terceira realizada pela comissão especial. Na primeira, realizada na semana passada, o secretário especial de Tesouro e Orçamento do Ministério da Economia, Bruno Funchal, defendeu o parcelamento proposto. Ele disse que o total de precatórios teve um crescimento repentino e passou de R$ 54,7 bilhões, neste ano, para R$ 89,1 bilhões, no orçamento de 2022.

Em debate realizado na terça-feira (5), representantes de estados e de municípios pediram mudanças no texto. O Comitê Nacional de Secretários de Fazenda Estaduais (Comsefaz) informou que, em princípio, os estados são contrários ao parcelamento. Mas pediu que, caso a PEC seja votada, a dívida dos estados e municípios com a União não seja obrigatoriamente compensada com os precatórios que a União deve a esses governos.

Reportagem – Noéli Nobre
Edição – Roberto Seabra

Fonte: Agência Câmara de Notícias

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