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Pandemia evidenciou importância da ciência e seus benefícios, afirmam especialistas

Publicado em 11 de Novembro de 2021 Por ADURN Sindicato
“O nosso futuro depende do avanço científico”, disse Renato Janine Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e presidente da SBPC, durante audiência pública sobre percepção da sociedade acerca da importância da ciência para o País
 
A pandemia da covid-19 trouxe de volta a discussão sobre a importância da ciência e seus benefícios para a população e a sociedade, afirmaram os participantes da audiência pública realizada pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados. O evento, realizado na última segunda-feira (8), discutiu a “percepção da sociedade acerca da importância da ciência para o País”. A audiência foi transmitida ao vivo pelo YouTube e aberta a perguntas pelo portal e-Democracia.

O deputado Vitor Lippi (PSDB-SP), autor do pedido de audiência, lembrou que grande parte da população brasileira ainda desconhece a importância da ciência para o presente e o futuro. “A tecnologia e a inovação é o ponto comum entre os países que mais se desenvolveram nos últimos 40 anos do mundo. São aqueles países que mais investiram nas estratégias de valorização e desenvolvimento da pesquisa e inovação. Portanto, esse é um passaporte para o futuro absolutamente essencial para o desenvolvimento econômico e social do Brasil”, afirmou na abertura do evento.

A diretora de Cooperação Institucional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Maria Zaíra Turchi, comentou os resultados da pesquisa e citou pesquisa realizada em 2019 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) em parceria com o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) para conhecer o grau de informação da população sobre a importância da ciência e da tecnologia no País. “Percebemos que um percentual significativo de brasileiros e brasileiras acham que a ciência e a tecnologia trazem mais benefícios que malefícios. É também muito interessante verificar que 62% desses entrevistados se dizem interessados ou muito interessados em algum assunto relacionado ao tema, sobretudo com destaque a medicina, saúde e meio ambiente”. No entanto, a pesquisadora apontou que essa constatação ainda é um tanto vaga. “Ninguém é capaz de citar um cientista, ou mesmo de compreender, do ponto de vista prático, os resultados da ciência para o desenvolvimento da sociedade, ou para a cura das pessoas. Não há uma clareza nesse sentido”, afirmou.

Renato Janine Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) apontou que, embora a opinião popular seja favorável à ciência, muitos não sabem os seus conteúdos ou como seus resultados impactam diretamente em suas vidas. “Isso significa que nós temos uma situação em que a maior parte da população brasileira tem o seu smartphone, mas as pessoas usam sem saber toda a ciência embutida nisso”.

Para Celso Pansera, secretário-executivo da Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br), a pandemia trouxe de volta a discussão da importância da ciência e tecnologia, porém ainda há muita dificuldade para a maior parte da população compreender como ela impacta no seu dia a dia. “A maior parte da população ainda não consegue compreender como a ciência faz parte do seu dia a dia e como pode fato melhorar sua vida — ou piorar, na sua ausência”. Para ele, é necessário um projeto de governo que coloque a ciência como peça fundamental na construção do País. “Precisamos mostrar que a ciência é tão importante quanto construir casas ou construir estradas”.

Flávia Calé da Silva, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), afirmou que a ciência precisa ter centralidade no projeto nacional. “A ciência precisa ser transversal nas políticas do País. Nós precisamos ter todas as áreas — desde as cadeias produtivas industriais até a política de mobilidade urbana — com centralidade na ciência. E o carro chefe devia ser a questão ambiental para a introdução dessa transversalidade. Ela pode ser o grande impulsionador da ciência em todos os campos”, afirmou.

Recursos

No entanto, segundo os participantes, faltam estímulos financeiros, educacionais e culturais para o desenvolvimento da área científica no Brasil. Os constantes cortes nos recursos destinados à ciência vêm prejudicando grandemente o andamento das pesquisas e comprometendo o futuro da ciência no País. “Se a percepção da ciência vai ser melhor ou pior, vai depender do grau investimento que se destina à ciência. Se você tem a ciência com pires na mão todos os meses, todos os anos, para conseguir o recurso  mínimo para seu funcionamento, quem vai nos respeitar? Como queremos que as pessoas vejam a ciência como algo importante se nem o Estado brasileiro vê?”, alertou Silva.

A questão da imagem da ciência, especialmente aquela transmitida por aqueles que estão no poder, é um ponto delicado e importante. “No último período piorou muito essa percepção quando se tem um chefe do Executivo que se nega usar a vacina, por exemplo. Isso é uma desconstrução da ideia de que a medicina é fruto da pesquisa cientifica. Esse é o exemplo que você transmite para as pessoas que já têm dúvidas!”, apontou Pansera.

O corte de recursos econômicos não é a única ameaça que sofre a ciência: a falta de recursos educacionais e culturais também preocupa os cientistas. “Se formos começar de onde deve começar, temos que pensar na educação básica, temos que formar nossas crianças e nossos jovens com essa percepção mais clara da importância do papel da ciência e de como ela trabalha”, defendeu Turchi.

Para Janine Ribeiro, não é possível pensar no futuro do Brasil sem ciência e tecnologia. “O nosso futuro depende do avanço científico”, enfatizou. “Ele permitirá que o Brasil deixe de ser um ‘país do futuro’ para que seja um ‘país do presente’, com exploração sustentável da nossa biodiversidade e com oportunidades iguais para todos que hoje são privados de futuro por conta da  pobreza e de várias outras formas de carência de terem reconhecidos seus talentos, e que poderiam se tornar grandes cientistas, grandes empresários, grandes médicos, e grandes professores. É um trabalho muito importante no qual o Brasil precisa se empenhar, revertendo o rumo equivocado dos últimos anos”.

Assista aqui à audiência na íntegra

Fonte: Chris Bueno – Jornal da Ciência

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