"Quem Cuida de Quem Ensina?": segundo episódio da série trata do conceito de burnout acometido em docentes
Até que ponto o trabalho docente influencia em seu cotidiano? Como é possível conciliar a necessidade de um trabalho com a necessidade de viver para além dele?
Estes são questionamentos importantes para fazer quando tratamos da relação entre trabalho docente e saúde, uma vez que, quando o exercício de ensinar ultrapassa os limites, o bem-estar e a qualidade de vida são negligenciados.
E foi sobre isso que tratamos nesse segundo episódio da série de reportagens especiais: “Quem Cuida de Quem Ensina?”. O convidado da vez foi o psicólogo e professor da Faculdade de Ciências da Saúde do Trairi (FACISA/UFRN), Flávio Fontes, que conceitua a doença mental mais comum, o burnout, e faz uma análise do dia a dia docente neste cenário de adoecimento.
Flávio cita o burnout, que foi objeto de estudo em sua pesquisa, como um exemplo de adoecimento presente na rotina do docente à luz de grandes nomes da área: "Na minha pesquisa de doutorado estudei o desenvolvimento histórico do conceito de burnout. Um dos primeiros pesquisadores a falar sobre o tema foi o psicanalista Herbert Freudenberger, que escreveu alguns estudos pioneiros na década de 1970; ele definiu o burnout como 'esgotar-se', 'exauri os próprios recursos físicos e mentais', 'desgastar-se lutando excessivamente para alcançar alguma expectativa irrealista imposta por si mesmo ou pelos valores da sociedade'. Em uma sociedade extremamente competitiva e orientada para o sucesso, são muito os incentivos para que o sujeito se identifique com o trabalho. Para Max Weber, o capitalismo educa e cria sujeitos econômicos: o trabalho deixa de ser um meio para se obter alguma coisa e passa a ser um fim em si mesmo. Passamos a viver para trabalhar, ao invés de trabalhar para viver. Mas, recentemente o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han analisou o tema como a relação de autoexploração que o sujeito de rendimento estabelece consigo mesmo; a implicação do sujeito é tão forte que não é preciso convencê-lo a trabalhar exaustivamente, ele próprio decide fazer isso".
Além disso, no que se refere ao campo da educação, o docente da UFRN traz um estudo realizado por mulheres brasileiras sobre esse contexto em universidades brasileiras: "Esse processo foi descrito por Carla Ribeiro e Denise Leda em um artigo sobre o trabalho docente em universidades federais brasileiras. As autoras descrevem docentes que se revelam fascinados pela possibilidade de sucesso e reconhecimento acadêmico, que, embebidos pela ideologia de excelência, acabam se transformando em algozes de si mesmos. O trabalho aparece como sem limites, borrando as fronteiras entre dia e noite, de semana e final de semana, tempo livre e tempo de trabalho. A paixão pelo próprio trabalho é frequentemente utilizada como justificativa para o exercício de uma rigorosa autogestão".
Ao concluir sua análise, Flávio Fontes destaca um mecanismo trabalhista que é desenvolvido dentro da comunidade acadêmica: "Do ponto de vista organizacional, as universidades estão cada vez mais pautadas pelo gerencialismo que promove inovação, produtividade e performance em um ambiente de múltiplas exigências, mas de estrutura e condições de trabalho precárias. Nesse contexto, o professor precisa fazer cada vez mais coisas e o seu trabalho vai se assemelhando a de um empreendedor, um verdadeiro culto da performance que vai desde obter financiamento a administrar outros processos burocráticos, e até divulgar o próprio trabalho. Pessoas altamente motivadas e identificadas a um determinado objetivo, organização ou causa podem entrar em uma relação de alienação com o próprio ideal. Resistir a cultura do 'trabalho total' é importante para que possamos viver em uma sociedade em que o valor das pessoas não seja definido por quanto trabalho produzem e sim pelo que vivem, não só no trabalho, mas também além dele".
Esta é uma série demonstra o compromisso do ADURN-Sindicato com todas as demandas docentes, compreendendo que a luta por respeito, valorização e mais investimentos na educação pública brasileira perpassa pela garantia de um espaço seguro e qualificado para aqueles que fazem o ensino e o saber circularem plenamente na sociedade.
No episódio desta vamos destacar quais os efeitos físicos da profissão docente a partir do momento que o limite do trabalho já foi ultrapassado.
Ouça episódio Nº 2 na íntegra: