Transformação da América Latina é um avanço global, diz ‘The Guardin’

Publicado em 31 de agosto de 2010 às 09h23min

Tag(s): América Latina



Artigo publicado originalmente no jornal The Guardian e replicado no site Opera Mundi, descreve a libertação da América Latina, com destaque para a eleição dos presidentes que compõem o Cone Sul e os obstáculos para continuar a trajetória de ascensão.
O autor, Seumas Milne, editor e colunista do The Guardian, destaca a eleição de Lula como a principal ferramenta que trouxe o desenvolvimento, não só para o Brasil, mas para América Latina como um todo. Milne fala também sobre as dificuldades nos pleitos que seguirão este ano nestes Países.
"A ascensão brasileira a potência econômica sob a liderança de Lula sustentou mudanças mais amplas por toda a América Latina. Menos radical que Chávez ou Morales, o presidente brasileiro também colocou dinheiro em campanhas contra a pobreza e proveu suporte vital para o projeto comum de independência e integração continental".
A transformação da América Latina é um avanço global
Seumas Milne*,
No The Guardian

Quase dois séculos depois de conquistar sua independência nominal e ser declarada quintal de Washington, a América Latina está ficando de pé. A onda de mudança progressista que varreu o continente na última década levou ao poder uma corrente de governos social-democratas e socialistas radicais que atacaram os privilégios sociais e raciais, rejeitaram a ortodoxia neoliberal e desafiaram a dominação imperialista da região.
Sua importância é constantemente subestimada ou banalizada na Europa e na América do Norte. Mas, ao lado da ascendência chinesa, a quebradeira de 2008 e a demonstração dos limites do poder dos EUA na "Guerra contra o terror", a emergência da América Latina independente são alguns dos exemplos de desenvolvimento que mudam a forma da ordem global.
Do Equador ao Brasil, da Bolívia à Argentina, líderes eleitos rejeitaram o FMI (Fundo Monetário Internacional), retomaram os recursos naturais do controle de empresas, avançaram na integração regional e teceram alianças independentes ao redor do mundo.
A dimensão dessa transformação e a representação distorcida do que está acontecendo por parte da mídia ocidental são mencionadas no novo filme de Oliver Stone, "Ao Sul da Fronteira", que permite a seis desses novos líderes falar por si mesmos. Impressiona seu apoio mútuo e compromisso comum - de Cristina Kirchner, da Argentina, ao mais esquerdista Evo Morales - de retomar a posse de seu continente.
Duas eleições cruciais vão colocar o futuro desse processo em jogo. A primeira são as eleições parlamentares na Venezuela, cuja revolução bolivariana tem sido a vanguarda da renovação latino-americana desde a primeira eleição de Hugo Chávez a presidente em 1998.
Devido à popularidade doméstica, Chávez tem sido alvo de uma campanha de vilanização e ridicularização na mídia norte-americana, europeia e das elites latino-americanas - campanha essa que tem pouco a ver com sua retórica explosiva e mais com sua competência em usar a riqueza de petróleo da Venezuela para desafiar os EUA e o poder corporativo por toda a região.
Esqueça seu sucesso em cortar pela metade a taxa de pobreza na Venezuela e triplicar o gasto social, rapidamente expandindo a saúde e a educação, além de promover uma democracia de base, com participação dos trabalhadores.
Desde o começo do ano, os inimigos da Venezuela ficaram em alerta assim que seu governo vacilou diante do racionamento de energia causado pela seca, falhou em afastar a recessão com um pacote de estímulo - como a Bolívia de Morales fez - e o descontentamento crescente com os altos níveis de criminalidade.
Portanto, espere uma enchurrada de declarações de que Chávez é um ditador que restringiu a liberdade de imprensa e perseguiu banqueiros e empresários, e cujo regime incompetente está indo para o brejo.
Na verdade, o presidente venezuelano ganhou mais eleições livres que qualquer outro líder mundial, a mídia do país é dominada pela oposição financiada pelos Estados Unidos e os problemas de seu governo derivam mais fraqueza institucional do que de autoritarismo.
Se o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) for derrotado no mês que vem, Chávez arriscará sua reeleição em 2012? E a radicalização venezuelana? Talvez. Mas isso parece cada vez menos possível.
A economia começa a se restaurar, a força policial nacional está finalmente sendo estabelecida e, principalmente, Chávez refutou enfaticamente, na última semana, a ameaça de guerra com o governo pró-Estados Unidos da Colômbia por meio de uma reaproximação que envolveu toda a região.
Ainda mais críticas serão as eleições presidenciais no Brasil em outubro. A ascensão brasileira a potência econômica sob a liderança de Lula sustentou mudanças mais amplas por toda a América Latina.
Menos radical que Chávez ou Morales, o presidente brasileiro também colocou dinheiro em campanhas contra a pobreza e proveu suporte vital para o projeto comum de independência e integração continental.
Impossibilitado de tentar um terceiro mandato, ele transmitiu sua popularidade à ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, que é, no mínimo, mais simpática aos bolivarianos. Incapaz de atacar as conquistas econômicas de Lula, seu principal concorrente direitista, José Serra, está agora em plena campanha contra Chávez e Morales, denunciando o apoio de Lula a eles, sua recusa a reconhecer o governo pós-golpista de Honduras e suas tentativas de mediação entre o Irã e os Estados Unidos.
Até agora, o sucesso dessa estratégia parece improvável, e Serra está bem atrás de Dilma nas pesquisas.
"Conclusão bem sucedida"
Se ambas as eleições no Brasil e na Venezuela forem vencidas pela esquerda, os Estados Unidos e seus amigos podem sentir-se tentados a procurar outras maneiras de tirar a América Latina do caminho da auto-determinação e da justiça social a que a região chegou enquanto George W. Bush estava ocupando lutando contra seus inimigos no mundo muçulmano.
Mesmo com a promessa de Barack Obama de "buscar um novo capítulo de diálogo" e seu aviso contra o "terrível precedente", que seria estabelecido se o golpe de estado contra o presidente hondurenho Manuel Zelaya persistisse, pouco mudou na política dos EUA em relação à região. O golpe em Honduras foi vitorioso - ou, como Hillary Clinton disse, a "crise" foi "direcionada a uma conclusão bem sucedida".
A mensagem clara foi de que a onda radical pode ser revertida e o medo agora é o de que outros governos, mais vulneráveis, como o do Paraguai ou da Guatemala, também possam ser "direcionados a uma conclusão" de uma forma ou de outra.
Enquanto os Estados Unidos estão tentando instalar sua presença militar no continente, usando o pretexto da "contra-insurreição" para fixar forças norte-americanas em sete bases na Colômbia.
Mas a intervenção militar direta parece implausível no futuro próximo. Se os movimentos políticos e sociais que conduzem à transformação continental puderem manter seu momento e apoio, eles não estarão apenas fundando uma América Latina independente, mas novas formas de política socialista, que havia sido decretada uma impossibilidade na era moderna.
Duas décadas depois que fomos informados de que não havia alternativa, um novo mundo está sendo criado.
(*) Editor e colunista do The Guardian. Foi correspondente do jornal britânico no Oriente Médio, Europa ocidental, Rússia, Sudeste Asiático e América Latina
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