Na noite dos cravos, choram Marias, Hildas, Idas e Darcis

Publicado em 12 de março de 2012 às 11h35min

Tag(s): DItadura Militar



As cadeiras fazem barulho no auditório da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, quando dezenas de pessoas se levantam para acompanhar o ponto alto da cerimônia: o secretário nacional da Justiça e presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, pede desculpas em nome do Estado brasileiro a quem sofreu com perseguição e violência durante a ditadura. Na noite da última sexta (9), a cena se repetiu sete vezes. Sete mulheres tornaram-se, oficialmente, anistiadas políticas, na 55ª edição da Caravana da Anistia. Algumas tiveram dificuldade para contar suas histórias.
A primeira é Maria Angélica Santos Bacellar, que leva dois minutos para conseguir falar. “Apesar dos muitos anos, é muito dolorido falar disso”, explica. Em abril de 1974, grávida de quatro meses, ela foi presa pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops de São Paulo. “Eu não tinha envolvimento com nenhuma organização, mas conhecia todos (os pais eram militantes comunistas), e era isso que ele queria saber”, lembra Maria Angélica. “Como ele dizia, você vai ser a ‘pessoinha’ que vai me contar isso.”
Foram duas horas andando vendada de carro pela cidade, antes de se iniciarem as torturas. “As coisas que não podiam ser contadas eu anulei. Como se diz hoje em dia, deletei”, diz Maria Angélica, que lembra da ajuda que recebeu de um carcereiro chamado Adão – ele passou a cuidar ainda mais quando soube que ela estava grávida. Levava remédios, inclusive. “Dentro do Dops, daquela coisa horrível... Muitas vezes ele trocava de plantão quando sabia que eu ia para a tortura.”
No final de maio – ou começo de junho –, Maria Angélica deixou a prisão, mas conta que ainda passou um tempo sendo seguida. Ficou com problemas na coluna. “Não tenho passado muito bem, mas segui a vida e consegui criar meu filho.” Pedro, que ela quase perdeu no Dops, é formado em Odontologia e especialista em implantes.
Retorno triunfal
Militante da Polop (Política Operária), Hilda Alencar Gil conheceu o jornalista Pedro Ferreira de Medeiros em meados de 1968. Em novembro daquele ano, ele escreveu uma matéria para a revista O Cruzeiro que se tornaria célebre, falando das atividades do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e dando nomes. Sob ameaças, tiveram de sair do país – pelo sul, foram para o Chile. “Não foram só ameaças. O carro que o Pedro tinha na época explodiu”, recorda. “Ele sempre se recusou a desmentir qualquer uma daquelas afirmações.” Pedro morreu em 1999.
Ela pleiteou, e foi atendida, o direito de voltar a estudar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP), curso que teve de largar em razão das perseguições. O conselheiro José Carlos Moreira da Silva Filho ainda recomendou que seu retorno à universidade seja acompanhado de perto. “A USP ainda precisa muito de uma intensa democratização”, afirmou. Ao pedir desculpas em nome do Estado, Pedro Abrão acrescentou: “E que o seu retorno à Universidade de São Paulo seja triunfal”.
Milagre
"É um milagre estar aqui", diz Ida Scharge, que lembra de várias pessoas com quem conviveu e lhe fazem falta, incluindo "uma pessoa que se matou na Alemanha, a Dora, de Minas Gerais”. A pedagoga foi presa em 1969, 25 dias depois de entrar na Osram, fábrica de lâmpadas, como militante da Ação Popular (AP). Passou quatro meses no Dops. Lembra-se com carinho de Dulce Maia (ex- Vanguarda Popular Revolucionária, VPR), com quem dividiu cela e cama, “você (Dulce) fazendo cafuné, dando remédio”.
A chegada à Alemanha, onde mora até hoje, também não foi fácil. “A embaixada (brasileira) sempre nos colocou como criminosas”, afirma. Na Europa, ela conta que ajudou a formar a Frente Brasileira de Informações (FBI) – a residência do casal tornou-se um abrigo de perseguidos. Hoje, Ida é terapeuta familiar. Ainda fala com raiva dos tempos de cárcere. “O sadismo com que eles se comunicavam, o sexismo, porque eles usaram e abusaram. Como é que as mulheres desses homens vivem com esses carrascos? Espero que eles sejam julgados, porque muitos merecem. É incrível como o processo de tortura, de quebrar o indivíduo, é internacionalizado”, diz Ida, que espera "não ter mais medo e não ter vergonha porque não morri".
Irmãs
As irmãs Maria Nadja e Maria Niedja Leite de Oliveira, militantes no movimento estudantil, tiveram os casos julgados simultaneamente. A primeira, estudante de Pedagogia na Universidade Federal do Ceará (UFCE), foi presa em 1968, durante uma manifestação em Fortaleza. Até consegue brincar com o fato: “Considero a minha prisão um demérito, porque corri tanto e me deixei prender na passeata”. Clandestina em São Paulo, era auxiliar de escritório quando voltou a ser presa, em 1971, e foi companheira de Dilma Rousseff no Presídio Tiradentes. “Chamaram no departamento pessoal, achei que era minha carteira assinada. Era a equipe do Fleury me esperando.”
Ela conta que estava a 40 dias de se formar quando foi presa no Ceará. Sua indenização foi calculada com base na ocupação de escriturária. O presidente da Comissão de Anistia explica que as reparações econômicas não podem ser calculadas tendo como base uma possível futura profissão. Maria Nadja também teve os direitos cassados durante dez anos, com base no Decreto 477, criado pela ditadura em 1969.
Já a geógrafa Maria Niedja diz que foi impedida de tomar posse em 1976 como professora na USP, após passar em concurso interno, por um “controle ideológico” imposto pela faculdade. Também foi confundida com a irmã. Chegou a ser presa, em 1972, no Doi-Codi. “É mais simbólico (o pedido de reparação), a constatação de um processo de controle ideológico que a Universidade de São Paulo fez com grande parte de seus professores”, afirmou.
Tortura
Eram quase 11 da noite quando os nove conselheiros começaram a discutir o processo de Darci Toshiko Miyaki, presa em janeiro de 1972 – o mandado de prisão foi expedido apenas seis meses depois. A ex-militante da ALN (Ação Libertadora Nacional) também precisou de algum tempo para contar sua história. “Apesar de ter passado por cadeira de dragão, pau de arara, choque elétrico, a pior tortura é a psicológica”, disse, afirmando discordar da Lei de Anistia. “Pune-se um crime, um delito. Nós não cometemos crime nenhum. Tínhamos o dever, o direito, pelo princípio da legalidade, de lutar contra uma ditadura que cerceou todas as liberdades, que tirou um governante eleito pelo povo, que torturou, que matou.”
Presa em 25 de janeiro no Rio de Janeiro, foi transferida para São Paulo três dias depois. “Só soube que era dia 28 porque um dos carcereiros ligou o rádio”, lembra. A seu lado estava Hélcio Pereira Fortes, também da ALN. “Soube que anunciaram a morte do Hélcio nesse dia. Não, ele estava vivo. Ele foi transferido comigo”, diz Darci. “Eu ouvi os gritos dele sendo torturado.” Um carcereiro (Casadei, que consta de lista de torturadores como atuante no Doi-Codi em São Paulo), conta, se referiu a ele como “presunto fresquinho”. Ela passou sete meses na prisão.
Darci vai se recordando de vários companheiros, anunciados como mortos após resistir à prisão, uma alegação constante da ditadura. “A cada notícia de morte de um companheiro, eu torcia – chegava a rezar – para que eles realmente tivessem morrido em tiroteio, para não terem sofrido as torturas”, afirma, lembrando do que passou. “Eles enfiam aqueles dedos imundos no seu corpo, para enfiar fios elétricos. Como podem se atrever a chamar esses crimes de crimes conexos?”
Sem conseguir falar mais, Darci desce do palco e é abraçada por várias pessoas, todas chorando, até voltar ao seu lugar. O conselheiro José Carlos diz: “Não podemos chamar de crime algo que uma legislação autoritária classificou assim, quando se tratava de um direito de resistência”. Paulo Abrão encurta a mensagem oficial para Darci e diz apenas: “Desculpas”.
O último “julgamento” da noite é de Gilda Fioravanti da Silva, proibida de ir ao evento por recomendação médica – aos 72 anos, tem seis pontes de safena e uma mamária. Foi presa em 1971, em Mauá, na região do ABC paulista onde militou Herbert de Souza, o Betinho. Foi presa e torturada no Dops. Abrão recomendou a uma neta, presente à sessão, que desse a notícia da anistia à avó com muito cuidado, para não emocioná-la demais.
Por se tratar de uma Caravana da Anistia em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, todas receberam cravos.
Fonte: Rede Brasil Atual
 

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